O efeito Wanderlei Barbosa

  • 07/Abr/2020 10h12
    Atualizado em: 07/Abr/2020 às 10h18).

*Por Ricardo Abalem Jr

Política sempre foi uma arte extremamente intrigante, especialmente por ser uma matemática (ciência) inexata.

No final de 2018 escrevi um editorial sobre os desafios que a prefeita de Palmas Cinthia Ribeiro enfrentaria no processo (natural) de reeleição. Naquele momento o cenário apontava um desafio hercúleo para quem havia recebido ‘de presente’ um mandato de prefeita e já dava sinais claros de ruptura com o grupo de gestão que a elegeu, ao lado de Carlos Amastha.

Embora Amastha nunca tenha conseguido construir uma base política sólida ele foi eficiente na montagem de um grupo de gestão, fundamental para garantir sua reeleição (2016). Claro que sua eleição (2012) também não foi fruto do trabalho de um grupo político formado por ele e sim de uma conjuntura maior que o processo municipal naquela ocasião.

Os apoiadores do então empresário que desafiava o Paço Municipal e o Palácio Araguaia foram sim eficientes, mas não os únicos responsáveis pelo êxito da campanha. Só o trabalho do pequeno grupo político e dos colaboradores diretos da campanha de Amastha não fechava as contas de forma a garantir o sucesso do pleito. Só pra recordar, na reta final Marcelo Lelis (candidato do Governo) tinha ampla vantagem e Luana Ribeiro (candidata da Prefeitura) não havia decolado.
Foi nesse exato momento que João Ribeiro e Raul Filho redirecionaram toda a artilharia que haviam colocado à disposição de Luana para reforçar as tropas de Amastha. Obviamente por uma questão estratégica com vistas a 2018 e não por paixão ao colombiano. Se Lelis vence as eleições fortaleceria o grupo de Siqueira e distanciava João Ribeiro do Palácio Araguaia. Raul, que sempre sonhou em ser senador, vislumbrou sua oportunidade de ouro e liberou seu grupo para ajudar.

Mas voltemos a 2020.

Como pontuei, no universo de dificuldades que Cinthia enfrentaria, Wanderlei Barbosa seria o principal obstáculo. Vice-governador, filho do primeiro prefeito de Palmas (Fenelon Barbosa), irmão do presidente da Câmara Municipal da Capital (Marilon Barbosa), pai do vereador e deputado estadual mais votado (Léo Barbosa) e ainda apoiado pelo presidente da Assembleia Legislativa (Antônio Andrade) e a maioria dos parlamentares da base governista.

Acredito que dificilmente algum candidato disputaria a prefeitura da capital com tamanha estrutura político partidária, um projeto promissor. Mas todo projeto precisa de trabalho e na política não se pode perder o tempo de ação. A indecisão do vice-governador em disputar as eleições municipais foi abrindo um leque de oportunidades e um cenário com inúmeros pré-candidatos.

Wanderlei reunia todas as condições, mas deveria começar a trabalhar logo no início do ano. Sua inércia permitiu a prefeita (até então sua principal opositora) alçar um voo com ventos que nem ela imaginava tão favoráveis.

Enquanto grande parte das lideranças da capital, e também os interessados em seus votos, aguardavam uma ordem (ação) palaciana para ganhar as ruas, Cinthia navegava calmamente numa embarcação sem timoneiro, porém com muitos navegadores de plantão. Nesse ínterim ouviu conselhos de vários líderes como Eduardo Gomes, Katia Abreu e Dorinha Seabra.

O resultado foi positivo. Obstinada, venceu a primeira batalha contra o ex-senador Ataídes, permanecendo no PSDB. Bem orientada, a prefeita conquistou vereadores e construiu uma estrutura de apoio com partidos importantes como o Democratas. E foi justamente nesses dois partidos que ela fez a aposta maior do seu projeto. Distribuiu três vereadores com mandato em cada um deles e montou outros grupos também importantes nos demais partidos aliados.

O efeito Wanderlei Barbosa, leia-se sua indecisão, certamente permitiu que muitos dos possíveis aliados da Praça dos Girassóis, aportassem no barco de Cinthia. Outro efeito dessa inércia foi a proliferação de candidaturas (parecia o COVID-19 na Itália), que ainda vão sacudir as estruturas das eleições de outubro (caso não sejam adiadas).

Candidaturas fora dos pilares oficiais como de Alan Barbiero, Junior Geo, Thiago Andrino, Vanda Monteiro, Vicentinho Junior, Joaquim Rocha, Gil Barison e outros (inclusive que ainda podem surgir) devem movimentar o processo eleitoral e vão definir os resultados.

Vencida essa primeira etapa do dia 4 de abril - a ‘janela das conveniências’ (dança das cadeiras) e a definição de filiações - a disputa proporcional já tem seu norte e, ao contrário das eleições anteriores, serão as campanhas proporcionais que ditarão o ritmo dessa campanha em Palmas.

Até o dia 5 de agosto (último dia para realização das convenções partidárias) tudo pode e irá acontecer em Palmas na formatação das campanhas majoritárias. As novas regras eleitorais para 2020 vão mudar o jeito de fazer campanha. Os candidatos proporcionais, que sempre estiveram a reboque dos majoritários, serão agora os atores principais em uma disputa que os partidos não podem esquecer de fazer a tarefa de casa, eleger vereadores (é uma questão de sobrevivência).

Para quem acredita que os grandes interessados em 2022 vão se expor agora, podem rever seus conceitos. 2020 é só a primeira fase do jogo. Se o efeito Wanderlei Barbosa foi calculado ou muda a estratégia no tabuleiro logo saberemos. Pra finalizar, um ditado dos velhos caçadores: “mais vale um passarinho na mão, do que dois voando”.

*Ricardo Abalem Jr é jornalista e consultor político.