Antônio Jorge fala com exclusividade a O Jornal sobre os bastidores da disputa pelo comando do PSL no Tocantins

  • 31/Mar/2020 18h22
    Atualizado em: 01/Abr/2020 às 23h20).

Em entrevista exclusiva concedida a O Jornal, o ex-deputado federal Antônio Jorge Godinho fala sobre os bastidores de uma disputa velada pelo comando do PSL no Tocantins, cujo desfecho foi sua destituição da presidência estadual e sua saída do partido.

Colega congressista do presidente Jair Bolsonaro, Antônio Jorge entrou de corpo e alma na campanha que elegeu o Capitão presidente em 2018. Pela primeira vez na história do Tocantins um candidato de direita obteve votação tão expressiva. No comando do PSL, Godinho e um pequeno grupo político defendeu a candidatura de Bolsonaro contra praticamente toda a classe política tocantinense.

Jorge afirma que somente no segundo turno de 2018 o candidato do PSL à presidência da República recebeu apoio de 3 prefeitos no estado e 1 deputado federal. O resultado, que surpreendeu a classe política brasileira, evidenciava um futuro promissor a Godinho e seu grupo. Mas a realidade foi muito diferente disso.

Golpes silenciosos e certeiros, locais e nacionais, não deram trégua ao presidente estadual do PSL após as eleições. Destituído da presidência do partido pela segunda vez em menos de um ano, o deputado estadual Constituinte e atual presidente do Sindicato Rural de Palmas, Antônio Jorge Godinho desabafa: “sempre paguei um preço alto pra manter valores como a lealdade e a honestidade como político. Mas sempre que for preciso escolher entre mandatos e meus valores, declinarei do poder”. Confira na integra a entrevista. (Por Ricardo Abalém Jr)

Deputado quando o senhor assumiu a presidência do PSL no Tocantins qual cenário encontrou à época?

O partido não estava consolidado no Estado. Poucas Comissões, três ou quatro, inclusive todas vencidas desde 2016. O convite para apoiar a campanha do presidente Bolsonaro aconteceu em Brasília, quando eu estava representando o Sindicato Rural de Palmas numa agenda do Funrural. Na ocasião encontrei o Bolsonaro e o Ronaldo Caiado. Caiado foi meu colega na Comissão de Agricultura do Congresso Nacional e Bolsonaro meu colega de partido. Ambos me convidaram e aceitei ajudar. Na ocasião ele (Bolsonaro) me informou que o partido já tinha candidato a Governador no Tocantins, o Cesar Simoni. Foi mais um ponto que me atraiu, porque o Simoni é meu amigo.

Como foi montar o partido pra enfrentar as eleições de 2018, recebeu apoio político local?

Montamos o partido com muita garra e determinação dos companheiros voluntários. Não tínhamos recursos, toda a estrutura física foi cedida por mim. Desde o prédio para funcionamento do partido ao custeio de energia, internet e pessoal, por mais de um ano. Naquele primeiro momento nenhum político tocantinense teve coragem de apoiar a campanha de Bolsonaro. E não foi por falta de convite, pois conversei com muita gente. Somente no 2º turno a campanha de Jair Bolsonaro teve apoio de três (Paraíso, Jaú e Carrasco Bonito) dos 139 prefeitos tocantinenses e um (Dep. Federal Vicentinho Junior) dos 11 congressistas do Estado.

Como foi a formação do grupo do PSL para as eleições de 2018?

Defendi e formei um grupo de candidatos a deputado estadual onde ninguém tinha mandato, justamente para dar oportunidade aos nossos companheiros. Uma chapa majoritária que levou a mensagem de Jair Bolsonaro como prioridade. Sem recursos, tocamos uma campanha simples, mas com objetivo claro de eleger representante no estado e o nosso presidente da República. Alcançamos nosso objetivo.

Uma campanha nacional vitoriosa. O resultado no Tocantins foi positivo?
Muito positivo. Pela primeira vez na história do meu querido estado, do qual muito me orgulho por ter sido Deputado Constituinte, um candidato à presidência de direita recebeu tão expressiva votação. Veja bem, Lula venceu Alckmin aqui no Tocantins com 70% dos votos. A Dilma obteve quase 60% dos votos contra o Aécio. Bolsonaro venceu no primeiro turno com 1% na frente do segundo colocado e perdeu para o Haddad no segundo turno por apenas 1%. Importante ressaltar que Lula e Dilma tinham apoio de governador, senador, deputados federais e estaduais, além de diversos prefeitos. Jair Bolsonaro não.

Como o senhor avalia o tratamento da Comissão Nacional após as eleições?

Pra minha surpresa, recebemos um tratamento muito frio. Não fomos chamados pelo partido para avaliar os resultados e muito menos para discutir o futuro da sigla. Depois de tanta luta e do resultado a nível estadual imaginamos que receberíamos apoio para desenvolver o PSL por aqui. Mas isso não aconteceu. A nacional retribuiu nosso trabalho com a destituição da nossa Comissão no início do ano de 2019, sem sequer nos informar. Fomos a Brasília e conseguimos reverter, mas não imaginávamos que o mesmo ocorreria novamente em 2020, e mais uma vez de forma desrespeitosa, nos destituindo da presidência e nomeando uma pessoa que durante a campanha não trabalhou pra ninguém do PSL. Lamentável, não pela mudança de comando e sim pela forma que foi feito. Além do mais, organizamos o PSL em mais de 80 municípios tocantinenses. Mas pelo visto a cúpula nacional tem outra visão de fortalecimento de partido.


Acredita que a saída do presidente Bolsonaro do partido e o fato do senhor ter sido colega dele no Congresso influenciaram nessa posição da nacional em lhe destituir da presidência?

Pode ser. Fui para o PSL a convite dele (Bolsonaro) e isso pode ter feito o Bivar fazer um julgamento sobre minha posição quando Bolsonaro deixou o partido. Mas o Bivar poderia e deveria ter falado comigo, mas não o fez. Inclusive pra agradecer nosso grupo e informar que estaria mudando o comando no estado. Isso seria decente, respeitoso.

Após a designação da nova comissão sob o comando da deputada estadual Vanda Monteiro, o senhor chegou a dizer que se sentiu traído. Pela nacional ou pelos companheiros locais?
Me senti traído pela nacional e também pela deputada Vanda, que poderia ter me dito que havia recebido um convite deles. Eu teria, por orientação da nacional, passado o partido pra ela e ainda a ajudado, assim como fiz em sua campanha, mesmo ela não tendo apoiado ninguém do partido. Após as eleições recebi pedido para abrir processo de infidelidade partidária pelo fato dela não ter apoiado nenhum companheiro do PSL, mas eu não assinei. Sempre paguei um preço alto pra manter valores como a lealdade, a honestidade e a ética na política. E sempre que for preciso escolher entre mandatos e meus valores, declinarei do poder.

Um dos motivos desse desalinhamento com a deputada Vanda foi o conflito de interesses numa possível disputa pela Prefeitura de Palmas?

Acredito que não. Sinceramente não. Até porque ela ou qualquer um filiado ao partido poderia chegar a disputar a Prefeitura de Palmas. O que eu sempre defendi foi que a candidatura deveria nascer limpa. O caminho seria a pesquisa. Quem estivesse melhor na preferência do eleitor seria candidato. Vaga carimbada é antidemocrático.



Qual o caminho que o Antônio Jorge vai trilhar a partir de agora?
Não tenho ambiente para conviver internamente com o PSL estadual ou nacional. Sou um homem íntegro, leal e correto. Tenho amizades sólidas com presidentes estaduais e nacionais de alguns partidos. Recebi vários convites e estou avaliando. Essa semana devo me posicionar com relação ao vínculo partidário. Quanto a política continuarei a fazer com o mesmo espírito que me levou a iniciar na vida pública, sempre pautado na ética e no compromisso de servir.