Eleições 2020, um novo tempo...

  • 11/Fev/2020 18h25
    Atualizado em: 11/Fev/2020 às 18h30).

*Por Ricardo Abalém Jr

Política se faz com a razão e a paixão. Cada uma delas a seu tempo é claro. Não há conflito entre esses dois polos. Mas inverter a ordem de sua aplicação pode ser letal.

A razão é a engrenagem primária. Ao planejar uma campanha o candidato deve avaliar todo o percurso de forma equilibrada, sem utopia. Só assim conseguirá elaborar um plano estratégico que lhe permitirá sucesso na execução do início ao fim da campanha – independente do resultado.

A paixão deve nortear justamente a execução das ações previstas nesse planejamento. Para ganhar as ruas, apresentar suas propostas e pedir o voto, o candidato precisa se nutrir desse sentimento - sem máscaras. A paixão potencializa as ações e o aproxima do eleitor.

É pouco aconselhável planejar com sentimento apaixonado, a emoção certamente pode nos trair. Da mesma forma é quase impossível executar as ações com a frieza de avaliar a razoabilidade de cada passo, é inconcebível abrir mão da emoção nesse momento. O contato com o eleitor será sempre pura adrenalina.

Novos tempos...

Política sempre foi uma arte com atuações complexas. Num passado próximo se permitia o luxo de fazer campanha sem planejamento e sem grupo. Bastava ter um partido e pronto. Em nome da democracia, ao longo dos anos, assistimos a um festival de criação de siglas. A maioria usada para servir propósitos de ordem pessoal e quase nunca coletiva. Porém um novo cenário pode estar surgindo no horizonte.

Com a aplicação das novas regras eleitorais para 2020, onde as coligações proporcionais estão vetadas, as pré-campanhas vão exigir um olhar diferente dos arquitetos políticos. Um planejamento mínimo e uma visão mais aprofundada, inclusive atenta a 2022. Eleger prefeitos e vereadores pode ser a tônica dessa campanha, mas consolidar os partidos nos municípios será o maior desafio em 2020.

Manter um partido debaixo do braço para assegurar eleição proporcional ficou no passado. É imperativo no processo político, a partir desse ano, construir um grupo que garanta o quociente eleitoral no âmbito partidário e crie musculatura para a candidatura majoritária.

O novo formato de disputa das eleições municipais de 2020 ainda não está muito claro, nem para quem tem mandato e menos ainda para os que buscam essa condição. Entender esse processo – ainda embrionário - será a peleja desses jogadores na disputa pelo mandato eletivo em todo o país. Haja razão, haja paixão!

No Tocantins não será diferente. Nossa jovem capital, com 30 anos de história e 7 pleitos municipais vivenciados, traz um cenário de muitas faces. Em Palmas a política sofre uma influência direta do Legislativo estadual, maior que em qualquer outro município tocantinense. Assim a matemática aqui deve levar em conta, além da força dos vereadores com mandato, os interesses dos deputados.

A peso dos partidos...

Atualmente 33 partidos políticos possuem registro ativo no TSE. A Câmara Municipal de Palmas tem em sua composição, vereadores de 15 diferentes partidos. Na Assembleia Legislativa Tocantinense também são 15 as siglas com representação. No Congresso Nacional as representações tocantinenses estão divididas em 8 agremiações. Ao todo, 21 partidos possuem representantes nas três esferas e tem interesses diretos em Palmas no pleito de 2020.

Na busca por uma das 19 (cobiçadas) vagas de vereador em Palmas, esses 21 partidos - com a força e o peso dos seus gabinetes – vão literalmente pra guerra. Mesmo com interesses comuns nas coligações majoritárias, terão que primar por suas eleições proporcionais, afinal partido sem mandato é abelha sem ferrão.

Nas eleições municipais de 2016, trinta partidos registraram candidaturas e receberam votos em Palmas. Oito coligações foram montadas para abrigar candidatos de 27 siglas. Somente 3 agremiações lançaram chapa pura. Teve coligação que juntou até 6 partidos para alcançar os 29 candidatos.

Os 19 vereadores eleitos, juntos, obtiveram em números aproximados 35.000 votos (cerca de 25% dos votos válidos) em 2016. Se todos estivessem no mesmo partido hoje, essa sigla elegeria somente 5 vereadores. Ou seja, as coligações proporcionais de outrora, que permitiam uma distribuição de candidaturas em grupos formados de última hora e sem compromisso partidário, já não cabem mais.

Esse ano os candidatos terão que criar um vínculo partidário mais forte, caso queiram integrar grupos mais expressivos. Situações e tendências que passam a valorizar cada vez mais a organização partidária e o planejamento estratégico.

O quociente eleitoral em Palmas esse ano deve ficar na casa de 7.500 a 8.000 votos. Cada partido poderá lançar até 29 candidatos a vereador, respeitando a proporcionalidade mínima de 30% de cada sexo. Para garantir uma vaga, cada partido precisa alcançar uma média de 300 votos entre seus candidatos. Parece pouco, mas equacionar essa problemática não é tarefa fácil quando se tem tantos interesses em jogo.

Se todos os 21 partidos, hoje devidamente representados na Câmara de Palmas e na Assembleia Estadual resolverem disputar uma vaga no legislativo metropolitano, o pleito de 2020 poderá alcançar um recorde de candidaturas. Quase de 600 candidatos e candidatas a vereador, quase o dobro de 2016 (com 350). Haja candidaturas majoritárias para abrigar tantas correntes diversas.

Os partidos mais organizados devem eleger mais de um representante, enquanto a maioria pode nem atingir o quociente eleitoral. Nesse contexto, bons candidatos e expressivas votações poderão ficar pelo caminho. Escolher corretamente e em tempo hábil um lugar ao sol são tarefas cruciais para os postulantes ao legislativo.

Saber dosar a aplicação dos sentimentos racionais (razão) e emocionais (paixão) pode ser o diferencial para as eleições de 2020. Um exercício que exigirá estratégia dos coordenadores e visão dos candidatos.

*Ricardo Abalém Jr. é jornalista e Consultor Político.