O paradoxo da maioria inferiorizada. Até quando as mulheres serão minorias nos espaços de poder?

  • 06/Dez/2019 10h57
    Atualizado em: 06/Dez/2019 às 11h00).
O paradoxo da maioria inferiorizada. Até quando as mulheres serão minorias nos espaços de poder? Foto: Divulgação

*Por Joana Castro


Há pouco menos de um século éramos impedidas de votar. Hoje, podemos votar e sermos votadas! Há um grande paradoxo quando nos referimos às mulheres, suas lutas e conquistas. Como compreender que uma maioria, afinal representamos 52% da população brasileira, continua minoria nos espaços de poder e tomada de decisões?

Mesmo com toda a evolução histórica, conquistada por meio da luta de muitas mulheres, há uma série de fatores que limitam a nossa partição e principalmente crescimento, em vários setores na sociedade. Mas, a passos lentos este cenário tem mudado e cabe a nós ocuparmos espaços que são nossos por direito, dar voz e representatividade a uma maioria, que apesar de tanta luta continua inferiorizada. A conquista pela igualdade está cada vez mais próxima.

Não há como referir ao presente sem contextualizarmos a história, as conquistas e o que mudou desde então. Um dos principais fatores que impediu o crescimento feminino e a igualdade entre homens e mulheres se deve à responsabilização do cuidado com a família. Já nascíamos com a obrigação de nos prepararmos para sermos boas donas de casa, associadas ao trabalho doméstico, que nunca foi reconhecido, valorizado ou tampouco remunerado. Sempre trabalhamos, mesmo que na informalidade e em prol do crescimento masculino. Só em 1879 as mulheres passam a ter direito a estudar em instituições de ensino superior. Hoje somos maioria, se comparado aos homens em grau de escolaridade, mas isso não nos garante igualdade de direitos.

Política

Vamos ao assunto que muito nos interessa e é o principal motivo deste artigo. A partir de 1932 as mulheres passam a votar e ser votadas. Nestes 87 anos muito pouco se avançou sobre a atuação feminina na política. Hoje, dos 81 senadores, 12 são mulheres. E na Câmara dos Deputados, os números são mais alarmantes, pois de 513 parlamentares, apenas 76 são do sexo feminino. No Tocantins, a Assembleia Legislativa possui cinco, de um total de 24 deputados estaduais. Nos 139 municípios, 24 são comandados por elas. E na Capital, apesar de termos uma prefeita, vale ressaltar que Cinthia Ribeiro era vice de Carlos Amastha e só assumiu o cargo após renúncia do gestor. Na Câmara de Vereadores, dos 19, temos apenas uma mulher.

Legislação

Com o objetivo de aumentar o número de mulheres eleitas para cargos públicos, em 1997, a legislação eleitoral passou a exigir que os partidos políticos tenham no mínimo 30% de mulheres na lista de candidatos. Após duas décadas em vigor, dados garantem que o dispositivo não conseguiu mudar a realidade. Mas não basta criticarmos a ineficiência desta Lei, é preciso partirmos para uma reflexão sobre aqueles que deveriam cumpri-las. O “empréstimo” de nomes, as famosas “candidaturas laranjas” para que os partidos possam cumprir as cotas, mas sem fazer campanha e buscar pela vaga, é violação da lei e uma ferramenta que contribui com a desigualdade entre homens e mulheres.

Para garantir às mulheres condições reais de participar das disputas, a reforma política aprovada em 2017 trouxe vários benefícios e mudanças na legislação voltada para as mulheres. Dentre elas a obrigatoriedade dos partidos políticos em garantir 30% do fundo partidário, recursos de financiamento de campanha e do tempo de propaganda gratuita.

Partidos

Nunca se viu na história, como acompanhamos este ano, com foco nas eleições municipais de 2020, a movimentação dos partidos políticos, com inúmeras ações, para incentivar a candidatura de mulheres. Mas a mudança eleitoral por si só não conseguirá introduzir a mulher nos espaços de poder. É preciso ir além. Trabalharmos mudança de pensamento e comportamento social, em nós, principalmente. Somos maioria no eleitorado. Já pensou se mulher só votasse em mulher? Ocupar espaços na política e em outras áreas é trabalhar a representatividade, termos a oportunidade para apresentar e debater pautas que são específicas do sexo feminino.

Mais que candidatas, é necessário introduzirmos uma nova cultura dentro dos partidos, fazer valer nossos interesses e decisões. A iniciativa é válida, as legendas já compreenderam a importância das mulheres, agora cabe a nós, mais uma vez, nos unirmos para conquistarmos estes espaços. E eles estão em todas as áreas, mas certamente começam na política. Vamos à luta?!