Tocantins, 31 anos de avanços e retrocessos

  • 07/Out/2019 09h37
    Atualizado em: 07/Out/2019 às 09h43).
Tocantins, 31 anos de avanços e retrocessos Foto: Divulgação

* Por Goianyr Barbosa

Na historicidade da divisão territorial brasileira, nenhum povo se vestiu de tamanho manto de coragem do que os habitantes do antigo Norte de Goiás, seja nos enfrentamentos contra a política fiscal abusiva da Coroa portuguesa, ou mesmo na resistência contra o atraso perverso que infelicitava as terras do antigo Norte.

Segundo a pena dos historiadores, a semente da autonomia teve a sua gênese no florescer de 1809, quando foi criada a Comarca do Norte, com a divisão da capitania de Goyaz, em que milhares de pessoas, unidas num só propósito, entre as quais, proprietários de terras, brancos, índios, negros, amarelos, mamelucos, mulatos, mestiços, não se calaram, levantaram-se e não se curvaram diante do poderio e da força dos que desejavam fazer do Norte um quintal, uma colônia do Sul de Goiás. De fato, muitos não subiram ao pódio da conquista, não viram a terra prometida liberta, autônoma, aprovada por um Congresso Constituinte como ente federativo, porém escreveram seus nomes na história como verdadeiros timoneiros e heróis da causa libertária.

Porto Nacional foi a vanguarda da luta

Se por algum período a luta criacionista andou arrefecida, logo desponta a figura de um magistrado, denodado e idelista, Dr. Feliciano Machado Braga, juiz em Porto Nacional, que ao lado de Trajano Coelho Neto e César Freyre fundam o Comitê Pró-Território Federal do Tocantins. A partir daí, uma nova era de esperança se espalha pelas cidades e atrai para o movimento empresários, estudantes, intelectuais, profissionais liberais e o povo, que, aliás, sempre fora o maior protagonista da luta pela emancipação do Norte goiano. Nesse sentido, passeatas, manifestos e comícios são realizados com freqüência. O hino e a bandeira do novo estado são lançados. Por sua vez, os jornalistas Oswaldo Ayres e César Freire criam a Associação Tocantinense de Imprensa com a finalidade de revelar os acontecimentos acerca da causa separatista. Pois bem, enquanto no Norte fervilhava o movimento de divisão, em Goiânia, estudantes da futura região do Tocantins criam a Casa do Estudante do Norte Goiano (CENOG) e ajudam substancialmente a propagar o movimento em encontros, nos centros cívicos, nas universidades, nas festas que eram promovidas, enfim, a Cenog passa a ser reconhecida como uma entidade forte, determinada e, consequentemente, incomoda os governantes e as correntes contrárias à divisão.

A CONORTE, Totó, Siqueira e o Povo

A intervenção militar de 64 paralisou os ânimos libertários, visto que muitos líderes que estavam à frente do front da batalha foram banidos, a Cenog foi lacrada e, com isso, houve uma desarticulação geral do movimento. Entretanto, de Colinas, no brotar dos anos 70 aparece um vereador pregando novamente a divisão de Goiás: José Wilson Siqueira Campos. Neste aspecto, encontra um solo fértil já adubado de tantas décadas de combates. Elege-se deputado federal e dá sequência à jornada. Todavia, para que a trajetória não fosse interrompida, como em outras ocasiões, seria necessário a existência de um organismo com expertise em comunicação, marketing e com pessoas gerencialmente capacitadas e comprometidas com o sonho libertário. Nesse ínterim, já no final dos anos 70 nasce a CONORTE (Comissão de Estudo dos Problemas do Norte Goiano), liderada pelo publicitário José Carlos Leitão e pelo engenheiro portuense, José Maia Leite, os quais colocam em prática planos e metas ousados que acabariam persuadindo o Congresso Constituinte, o Planalto, a imprensa nacional e a classe política goiana de que chegara o momento de um povo ser livre e soberano.

Antes, porém, em 1982, o Norte, através do sufrágio, elege representantes para o Legislativo goiano, dentre eles, o portuense José Antônio Totó Aires Cavalcante, conhecido como Totó Cavalcante, o qual se destaca pela bravura e liderança no movimento. Assinalando que, a diretoria da Conorte era constituída por pessoas altamente comprometidas, maioria com formação acadêmica, todas nascidas na parte Norte de Goiás. A Conorte promoveu, durante quase duas décadas, centenas de reuniões, palestras, simpósios, estudos, além da produção de todo o material publicitário do movimento. Numa de suas ações mais ousadas, mobilizou e colheu mais de 70 mil assinaturas, as quais foram juntadas à Emenda que criou o Estado do Tocantins. Já em segundo mandato, na Assembleia Legislativa de Goiás, pelos idos de 87, o deputado Totó Cavalcante, como líder do Governo Santillo, trabalhava e liderava seus pares no parlamento para não haver um possível rompimento de compromisso do governo Santillo com os sonhos da gente tocantinense. E foi assim, a Conorte trabalhando incessantemente em todos os setores políticos de Brasília, prefeitos fechando rodovias e fazendo manifestos até que, no dia 5 de outubro de 1988, o sol da justiça iluminou a mente de nossos congressistas e o Norte goiano passou definitivamente a ser do povo tocantinense.

A saga e a determinação de um povo, para edificar uma pátria livre de injustiças e opressão, teve a sua gênese no século XVIII, transpôs séculos e teve o seu capítulo final encerrado no século XX, portanto, quase 200 anos de batalha, quando, finalmente, em 5 de outubro de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte aprovou o desmembramento do Norte do Sul de Goiás, concretizando a criação do Estado do Tocantins.

Após três séculos de existência, valeu a luta?

Uma boa pergunta para ser respondida, através de uma pesquisa de opinião, preferencialmente entre os que habitavam o antigo Norte goiano antes da criação do Tocantins. Suponho, no entanto, que o índice de SIM seria esmagador, não obstante os problemas que enfrentamos, retornar ao passado seria um retrocesso impensável. Portanto, pense num deslocamento da região do Bico do Papagaio até Goiânia e veja o quão longínquo estávamos da nossa outrora capital. E mais, o Norte goiano hoje teria uma população elevadíssima e o drama com educação, saúde, estradas, comunicação, agricultura, segurança, saneamento, desemprego, seria um verdadeiro caos, muito além do presumível. Outro ponto a destacar, é que o Estado tem a sua capital estabelecida em local centralizado, situada à margem direita do rio Tocantins, local defendido pelos idealistas, em razão dessa área territorial, na época, encontrar-se no mais absoluto atraso. Também no outrora Goiás, a região contava com pouquíssimos centros de ensino superior, ao passo que hoje já são mais de duas dezenas. Cabe ainda ressaltar que no setor de comunicação todas as operadoras de telefonia do país já atuam no estado. No setor bancário, as principais agências estão estabelecidas por aqui.

Dados obtidos na Secretaria Estadual da Educação revelam que o estado possui hoje 154 mil alunos matriculados na rede estadual de ensino, dos quais 11 mil são em regime integral e 143 mil em tempo parcial, distribuídos em cerca de 500 estabelecimentos por todos os 139 municípios. No entanto, o Tocantins possui 10.4% da população com mais de 15 anos analfabeta. Uma responsabilidade aos governantes mudar essa realidade. Já na saúde, a rede hospitalar conta com 17 hospitais localizados em 15 cidades, sendo nove regionais. O Hospital Geral de Palmas conta com 399 leitos de internação e é a grande referência de tratamento médico. Com toda essa rede espalhada, ainda faltam profissionais médicos, os hospitais estão constantemente lotados, em muitos hospitais faltam medicamentos, alimentação aos pacientes, enfim, a saúde pública estadual vive um drama há décadas com pacientes nas filas de espera e sem atendimento digno.

O Agronegócio é a locomotiva do estado

Se em alguns setores o estado enfrenta um cabedal de problemas, em outros o estado caminha e até supera prognósticos, graças, porém, ao tino empreendedor do empresariado ligado ao agronegócio. Segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), a produção de grãos da safra 2018/2019 registrou um total de 4,86 milhões de toneladas. Desse total, 60,3% é representado pela soja. Toda essa produção representa 49% de toda a produção da região Norte do País. Ainda na cadeia produtiva do agronegócio, a pecuária vem sendo destaque. De acordo com dados da Adapec (Agência de Defesa Agropecuária do Estado), o Tocantins está com mais de 8,5 milhões de cabeças de gado, ocupando o 3º lugar na região Norte e o 11º no ranking nacional.

O norte goiano viveu a sua existência, em relação ao sistema rodoviário, sem nenhum palmo de rodovia asfaltada, a não ser o da BR-153. Hoje o Tocantins possui quase 6 mil km de rodovias asfaltadas, embora mais de 7 mil km esperam por cobertura asfáltica. No quesito Segurança Pública, o efetivo quando aqui era Goiás, eram algumas centenas de policiais e alguns batalhões. Hoje, o Tocantins possui cerca de 3.650 homens na ativa, um quartel do Comando Geral, oito batalhões, um Batalhão Ambiental de Palmas, um Batalhão de Operações Especiais na capital, um Batalhão Rodoviário em Palmas, além de cinco CIPM (Companhias Independentes da Polícia Militar).

Em resumo, concebido para ser modelo, o oposto da política velha de muitos entes federativos, o Tocantins de hoje se nivela nas mesmas práticas dos demais. Afinal, um dos males crônicos da política brasileira, a corrupção, já se encontra disseminada entre os principais poderes que compõem o Estado, causando males a toda a sociedade. Pois bem, assim como várias gerações mostraram garra e consciência altiva para construir a sua liberdade, cabe a geração de hoje se organizar e não permitir, pelo voto, que os políticos de condutas perversas se assenhorem do poder. Portanto, a luta criacionista foi épica e louvável, no entanto zelar pelo território tocantinense contra as raposas e lobos é um imperativo sob a responsabilidade de todos nós. (Goianyr Barbosa é jornalista, fez parte da diretoria da Conorte nos ano 80 e presidente após a criação do Tocantins)