Willamara Leila, fênix do Judiciário

  • 18/Set/2019 16h19
    Atualizado em: 18/Set/2019 às 16h27).
Willamara Leila, fênix do Judiciário Foto: Divulgação

A eminente ex-desembargadora de Tocantins, Willamara Leila de Almeida quando foi presidente do TJ/TO, empenhou todo serviço intelectual e moral a serviço da justiça, causa na qual deixou o seu registro de mulher valorosa e de ação. Essa douta magistrada, paradigma de lídima tribuna forense, que se notabilizou como mulher cerebral, se tornou mártir da ditadura de um judiciário que não comunga com ideários de luta e progresso.

A máxima do filósofo alemão Johann Goethe afirmando que “não basta dar os passos que nos levarão um dia ao objetivo, cada passo deve ser ele próprio um objetivo em si mesmo, ao mesmo tempo que nos leva para frente”, citação esta proferida em seu discurso de posse, reverberou os seus desafios e as suas oportunidades para fazer com que a justiça seja realmente igualitária a todos.

O seu inaudito e pródigo feito de inaugurar celeremente 10 fóruns das sessenta obras construídas em todas as cidades – uma das cornucópias das suas monumentais realizações inovadoras causou ab initio ciúme e inveja aos políticos fronteiriços apegados aos seus cargos sem visibilidade. A inveja é desejo impotente, desejo cancelado, burrice produzida e manipulada. A sua cultura é tornar o afeto regulador da vida em tirania. O ódio é um sentimento infra que causa mal só a quem o nutre.Sempre acaba apanhando, uma surra merecida. As injustiças e as vinditas persecutórias são cupins que corroem o cerne dos tribunais, chagas cancerosas que maculam as vestais do direito. Os políticos que acusaram torpemente a ex-desembargadora enodaram a justiça.

O ódio é a vingança do covarde, disse Bernard Shaw. As pedras que jogaram nas suas vidraças vieram de um poder sem céu, de uma fonte de tosca covardia. O repente no seu cerceamento ignominioso que interrompeu o seu promitente fanal de obras foi para ela que sempre teve o desempenho da competência e eficiência comprometedora na gestão da justiça, um amargo e imerecido cálice de fel. As mais célebres injustiças são aquelas travestidas de justiça. Como Sócrates, condenado a beber cicuta, ela não sabia qual era a acusação, de onde nasceu a calúnia contra ela, baseado em que moveram ação contra ela, afirmou firme e serena em entrevista ao Estadão em 16 de julho: “gostaria de ter sido julgada logo nos primeiros anos, ainda que fosse condenada. Gostaria de ter sido julgada para não viver nessa autoprisão em que vivo. Isso é um mal muito maior para o réu do que se tivesse sido julgada com celeridade”, afirmou.

No entanto, as acusações nunca a intimidaram diante dos rumores. A afronta não a fez perder a calma. Tinha nos tribunais a serenidade e a calma dos justos: “Quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz do que o injustiçado”. Esse pensamento que sempre foi a sua tribuna, foi a sua força diante dos que precisavam de muletas, de argumentos para condená-la. Quanta sofistaria maquinada nos esconsos da sua seara turbinada de inveja de todos. E por ínfima que seja a criatura vítima, nós nos revoltamos, nos indignamos e nos insurgimos contra ela. “A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza humana”, disse Voltaire. A comunhão de ódios numa orquestração fraudulenta e sofística não lhe deu sequer a mínima chance para se defender. Saudade da justiça pura, imaculada, da justiça imparcial, exata, precisa, assim perorou o nosso maior tribunício de todos os tempos.

Banida do cargo acintosamente, uma chicana sórdida e inominável que lhe fechou todos os meandros da defesa, essa intimorata e polivalente tribuna que honra a legenda dos tribunais, foi afastada há oito anos da sua gestão por inveja e ódio dos políticos. Essa bufonaria infame que alijou do mercado de trabalho, o seu lídimo direito de trabalhar para fazer jus a sua remuneração, foi malsinado pelo seu colega Liberato Póvoa: “pelo que Willamara afirmou, sua defesa foi vergonhosamente cerceada, e corroboro o que ela disse, pois senti na pele a safadeza desse CNJ...”. Mas nada é maior do que a voz da justiça. A magistrada Willamara, Fênix tocantinense, renasceu da última cinza, saindo da derrota para o fogo nas chamas da vitória sendo absolvida da acusação em processo movido pelo Ministério Público (MPE) que a acusava de praticar concussão (vantagem indevida) e peculato por decisão da 3ª Vara Criminal de Palmas, decisão esta proferida pelo juiz autor da ação, após o próprio ter se manifestado pela absolvição. A sua singular força moral lhe permitiu enfrentar com desassombro e coragem, o peso infame dessa sorte da carga de ódio e inveja. Essa é uma das suas surpreendentes características: renascer como o pássaro da mitologia grega que renasce das próprias cinzas.

Essa Luminar magistrada venceu por que lutou pela justiça com a razão própria dos inocentes, nunca se utilizando das catilinárias dos que a acusavam. Bastou lhe confiar o futuro à providência dirigindo a ação para justiça. Quanto a ela dizia Sócrates: “Quanto a mim, tudo que eu sei é que não sei nada, porque não sei o que é justiça, não sei se (a justiça) é uma espécie de virtude ou não, se a pessoa que a tem é feliz ou infeliz”. Como disse o grande jurista Rui Barbosa: “A justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada”.

Mas as turbulências nunca ofuscaram o traquejo de luta dessa indômita guerreira adestrada no seu ideal de bom combate. Ela insurgiu contra essa injusta tirania do judiciário, ciente de que os traidores sempre terminam na forca da história. A sua voz sábia e altaneira que nunca se cala diante das injustiças expôs o fedor dos sicofantas da política, dos traidores de plantão. “A ditadura do judiciário é pior do que a mais totalitária das ditaduras”, disse o ex-desembargador José Liberato, uma legenda de provérbios. A sua voz que estava com a verdade calou todos os clamores da injustiça que cerceou os seus direitos na OAB e anulou a sua aposentadoria. “O corporativismo do STF que ocultou o seu justo pedido cerceando a sua liberdade apagou a chama do seu ideal, condenado-a a viver um calvário de perseguições e provações. De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir da desonra e a ter vergonha de ser honesto”. A aposentadoria que lhe deram não foi um prêmio, mas um castigo. Os tribunais estão em débito com essa insigne magistrada de Tocantins, mártir e fênix do judiciário.

*Por Edvaldo Nepomuceno, jornalista, escritor e poeta.