Queriam bagunçar o vernáculo, pois para os incompetentes interessa é nivelar por baixo

  • 27/Ago/2019 16h12
    Atualizado em: 27/Ago/2019 às 16h15).
Queriam bagunçar o vernáculo, pois para os incompetentes interessa é nivelar por baixo Foto: Divulgação

Sempre que posso, assisto na Rádio CBN ao programa “Na ponta da língua”, do conterrâneo, o jovem professor tocantinense de Taguatinga Carlos André, que é um dos últimos remanescentes no cultuar da boa linguagem, pois hoje em dia ninguém mais se preocupa com a boa forma, enchendo os jornais de solecismos e barbarismos e tomando como regra o anacoluto e o gerundismo, como exceção da linguagem escorreita, que deveria ser exatamente a regra. Em vez de ouvirem esses programas ditos sertanejos, com umas músicas de carregação, que possuem mais barulho que melodia, deveriam escutar as preciosas lições que Carlos André nos propicia.

Sem ser nada mais que um escriba interiorano, que preenche espaços neste jornal, às vezes me enfureço em ver que muitos jornalistas e articulistas cometem verdadeiros pecados com o nosso vernáculo, sem se lembrarem de que para se escrever é preciso ter um pequeno verniz do latim, do grego, da Gramática Histórica e saber um pouco de análise sintática, conhecer os termos essenciais, integrantes e acessórios da oração e outras coisinhas que reclamam de quem escreve umas linhas pelo menos gramaticalmente coerentes, como saber o que é um adjunto adnominal, adverbial ou um aposto, para driblar o cipoal dos solecismos que campeia nas páginas de jornais, de revistas e até de livros..

Em 1980, quando eu militava na imprensa mineira com estas minhas insossas mal traçadas linhas, um professor gaúcho, talvez sem outra opção para apare¬cer, surgiu com uma história de simplificar a ortografia. Seu movimento tomou espaços nos jornais, gerou seminários e suscitou polêmicas. Mili¬tando, na época, comi disse, na imprensa mineira e adepto daquela nação de gente que gosta de ver as coisas bem escritas, andei escrevendo uns artigos descendo a lenha na ideia.

Nunca mais ouvi falar no assunto. É claro que meus artigos não in¬fluenciaram na água fria que foi jogada na fervura do movimento. Ele se esvaziou por si só: faltava apenas essência.

Anos depois, lendo em um jornal aqui de Goiânia, vi que o movimento voltara a atacar: uma das páginas internas do mesmo jornal noticiava que um professor lá do Sul voltava a movimentando-se, exatamente no sentido de re¬formar a ortografia, propondo sua simplificação, através da proscrição de dígrafos com o RR e o SS e outras investidas, como a supressão da cedi¬lha, etc. Tudo isto vinha no propósito de facilitar as coisas, para levar-nos a escrever exatamente conforme pronunciarmos as palavras.

Se a ideia veio causar certo júbilo no meio de uma considerável ca¬mada de pesudointelectuais, que com isso iriam dormir sossegados, sa¬bendo que o “ezagero” (exagero), o “qem” (quem) e o “caza” (casa) estarão certos, por outro lado, a inusitada ortografia proposta traria, no mínimo, dois desastres: primeiro, derrubando por terra um trabalho de séculos de pesquisa filológica, que absorveu o fosfato de muitos estudiosos, que dis¬secaram o latim vulgar e conviveram com o “Apendix Probi” e o “Perigrinatio ad Locca Santa” para descobrir por que esta ou aquela palavra é escrita com S, com Z ou com X; segundo, porque a aceitação da ideia do profes¬sor reformista seria nivelar por baixo todo mundo.

Ora, a se aceitar como séria uma absurda ideia como esta, seria de¬cretar de vez a falência da língua, já um tanto combalida pela retirada do latim das escolas; o latim é que era o alicerce do vernáculo.

Aceitou-se a última reforma, em 1971, porque se limitou a suprimir o acento diacrítico, e, mais recentemente, o trema, o que não representa propriamente uma reformulação, mas uma simplificação externa, esta apenas para facilitar a utilização da língua. Mas, o endosso da nova cirurgia que se pretendia impingir ao portu¬guês seria inadmissível, pois bastaria que se ensinasse o alfabeto, e todo mundo se tornaria escritor. Aí, o Zé Pedreiro seria o concorrente de Dru¬mmond, o Chico Sapateiro disputaria vaga na Academia Brasileira de Letras.

Que não me tachem de pedante, mas não me faz gênero essa espécie de reforma. O gostoso da língua é quebrar a cabeça para precisar o étimo das palavras, estudar a Fonética, a Morfologia, a Semântica, a Sintaxe e a Estilística. E o estudo da língua educa a arte de raciocinar, além de esta¬belecer uma linha divisória entre os capazes e os incapazes. É por estas e outras, que nas minhas aulas de português em que procurei pelo menos dar um verniz de sabença, procurei sempre despertar nos alunos o gosto pelo vernáculo, e ás vezes chegava às raias da intransigência, ao consta¬tar que a juventude de hoje não lê, não busca aperfeiçoamento intelectual, vivendo uma apatia que Deus me livre!

E ainda aparecem com esta bendita reforma...

Mesmo se se admitisse tão malfadada reforma, haveria outros pro¬blemas de ordem prática; o nome seria “animau” (à maneira nortista) ou “animal”? Seria “paxta” (à carioca), ou “pasta” mesmo? Seria “ôitio”, (à moda nordestina), ou “oito”?

O que pretendia o “genial” professor era desestimular o estudo sério do vernáculo, pois se vingasse essa simplificação capenga que veste as pala¬vras com trapos fonéticos, ele estaria estimulado e, com a corda toda, para inventar novas regras para eliminar a pontuação ou mesmo bagunçar a regência para justificar construções no feitio de “nóis vai”, “nóis fumo” e outras, sem se falar em novas possíveis e inevitáveis inovações.

Que se escreva sem a rigidez gramatical é desculpável. Ou, por outra, há casos em que o descompromisso com a severidade da linguagem escorreita até cria um estilo flu¬ente e gostoso. E posso citar, sem medo de puxão de orelha, o nosso Carmo Bernardes, que embora não escrevesse com os olhos grudados na gramática, tinha um estilo próprio, uma cultura fora-de-série, um cabedal de conhecimentos e uma vivência com o mundo tão grandes, que não foi nem uma nem duas ou três vezes que quase fui aos tapas com a mineirada lá em Belo Horizonte, quando teimei (e teimo), que nosso homem da Macam¬bira estava muitos furos acima de Guimarães Rosa. Coisas de polêmicas literárias no jornal.

E Carmo Bernardes, com toda a sua independência no respeitante à gramática, também não endossaria uma ideia reformulista assim.

Ora, brincar com a língua é querer brincar com um dos elementos formadores da nossa nacionalidade. Não existe qualquer base, que não o comodismo de querer adequar a língua à incapacidade deles lá.

Os adeptos de tão quixotesca aventura filológica deviam abandonar a pregação e dedicar-se ao estudo da língua, aceitando-a como é: rica, difícil e cheia de esplendor, porque uma cirurgia dolorosa assim, faria, por certo, Rui Barbosa e outros cultores do vernáculo tremerem no túmulo.

*Por Liberato Póvoa - Desembargador aposentado, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprens - AGI - escritor, jurista, historiador e advogado. e-mail: liberatopovoa@uol.com.br