Uma dupla de repentistas dá preciosa lição de vida

  • 18/Jul/2019 09h44
    Atualizado em: 18/Jul/2019 às 09h46).
Uma dupla de repentistas dá preciosa lição de vida Foto: Divulgação

Quando vou ao Nordeste, nunca deixo de me deliciar com os repentistas, que, em busca de uns míseros trocados, divertem-nos principalmente nas praias, com preciosos e inusitados repentes. Alguns, porém, deixam-nos preciosíssimas lições.

No início dos anos 90, eu era Presidente do TJ-TO, a convite do amigo Helvécio de Brito Maia Neto, então juiz de Direito (e hoje desembargador Presidente da Corte), fui passar uns dias em Aracaju e na Praia de Atalaia, fomos aproveitar o sol, o peixinho frito e o bate-papo sem compromisso. Fomos com amigos (Helvécio, Edfredo e Paulinho do Café Sul Americano, dentre outros).

De repente, chegaram dois repentistas, propondo tirar uns versos, no que acedemos, e como eu estava por acaso com um gravadorzinho cassete, gravei o repente, que depois ouvi com calma. Violas alceadas, um cantava e outro secundava para não perder o tema, que era uma reflexão sobre a ganância.

E começaram: um cantava uma estrofe, e outro prosseguia com seus versos.

“Se o final é normal, pra que correr, e se morrer é ruim mas é comum,
se o caixão vai levar de um em um e se o dinheiro não pode socorrer,
eu só quero o bastante pra comer, pra viver, pra vestir e pra calçar,
mesmo sendo um pouquim se não faltar, eu só quero este tanto todo dia,
pra que tanta ganância e correria, se ninguém veio aqui para ficar,

Todo homem podendo tem que ter moradia, saúde e alimento,
um pouquinho também de investimento, que um dia ele pode adoecer,
necessita também de um lazer para o corpo cansado descansar,
mas tem gente que pensa em enricar, não descansa de noite nem de dia,
pra que tanta ganância e correria, se ninguém vem aqui para ficar.

Para que tanta ganância por poder, exibir a fortuna adquirida,
se o que a gente ganhar durante a vida é preciso deixar quando morrer,
e na cova não tem como caber e no caixão não tem como levar,
lá no céu não tem banco pra guardar o que o morto juntou quando vivia;
para que tanta ganância e correria, se ninguém vem aqui para ficar.

Sei que a vida da gente se encerra e muita gente se esquece com certeza,
e é por isto pensando na riqueza que algum lobo estão fazendo guerra
que alguns lobos estão fazendo guerra, e o pior é que brigam pela terra
pra depois nela mesmo se enterrar; toda essa riqueza vai ficar
e só o corpo vai pra terra fria, para que tanta ganância e correria,
se ninguém vem aqui para ficar.

Pra que tanta ganância e ambição, se esta vida é bastante passageira,
tudo vindo de um monte de poeira na mortalha, na cova e no caixão;
ninguém pode pedir prorrogação quando o jogo da vida terminar,
a não ser uma vela pra queimar, o destino é partir de mão vazia,
para que tanta ganância e correria, se ninguém vem aqui para ficar.

A ganância infeliz desenfreada deixa o mundo sem paz e sem sossego,
pois tem gente com mais de um emprego e muita gente morrendo sem ter nada,
mas a vida da gente é emprestada e qualquer dia o dono vem buscar;
qualquer vida que a morte carregar ninguém pode tirar segunda via,
para que tanta ganância e correria, se ninguém vem aqui para ficar”.

Confesso que sempre fui um apaixonado pela cultura popular, e hoje, ouvindo o que dois repentistas cantaram há quase trinta anos, chego à conclusão de que não existe nada mais duradouro e sábio do que a filosofia do povo.

*Por Liberato Póvoa - Desembargador aposentado, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprens - AGI - escritor, jurista, historiador e advogado. e-mail: liberatopovoa@uol.com.br