Cannabis medicinal em pauta

  • 26/Jun/2019 11h30
    Atualizado em: 26/Jun/2019 às 11h34).
Cannabis medicinal em pauta Foto: Divulgação Polícia Federal

“Só quem vive a dor e o sofrimento de uma doença sabe da necessidade e urgência de um medicamento e sente o real sentido de que a vida não espera”. A afirmação é da advogada Margarete Santos de Brito, diretora da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi) e mãe de Sofia, de 10 anos, diagnosticada ainda bebê com uma doença rara, que causa crises convulsivas constantes. A família de Margarete foi a primeira no Brasil a conseguir liminar na justiça para plantar cannabis e fazer o óleo utilizado por sua filha.

Para debater questões como os benefícios do uso terapêutico da maconha, a regulamentação da produção nacional e o apoio à pesquisa, a Fiocruz e a Apepi realizam, nos dias 29 e 30 de junho, a partir das 9 horas, a segunda edição do Seminário Internacional Cannabis Medicinal, com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O evento acontecerá no Instituto Europeu de Design (IED), na Urca, no Rio de Janeiro.

Estudos mostram que há evidências científicas sobre os benefícios do uso da cannabis na medicina, que pode ajudar no controle de doenças como autismo, epilepsia, Alzheimer e dor crônica, entre outras. Em relação ao Alzheimer, por exemplo, estima-se que cerca de 10% das pessoas com mais de 65 anos e 25% com mais de 85 anos podem apresentar algum sintoma dessa enfermidade e são inúmeros os casos que evoluem para demência. Existem, no país, mais de oito mil pacientes autorizados a importar remédio à base de cannabis para diversos tipos de doenças.

Atualmente, há cerca de trezentos estudos clínicos realizados no mundo sobre cannabis medicinal. Especialistas em diversas áreas participarão do encontro. Entre eles estão Sidarta Ribeiro (professor titular de neurociências, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e secretário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC), Ricardo Reis (Mestre e Doutor em Biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com ênfase em neuroquímica), Sergio Sanchez Bustos (médico-cirurgião da Universidade do Chile, com especialidade em Saúde Pública, especialista em políticas de drogas e medicina cannábica), Ismael Galve-Roperh (doutor em Bioquímica e Biologia Molecular e professor da Universidade Complutense de Madri, onde lidera o grupo de pesquisa “Canabinóides e neurogênese”), Emílio Figueiredo (advogado e diretor da rede jurídica pela reforma da política de drogas), Leandro Ramires (cirurgião oncológico, Universidade Federal de Minas Gerais) e Eduardo Faveret (neuropediatra e diretor médico do Centro de Epilepsia do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer). O evento também contará com um representante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“É importante que a Fiocruz, como uma instituição voltada para a saúde pública, esteja envolvida neste debate. Atualmente, já se tem um entendimento mais claro sobre os diferentes caminhos possíveis para chegar ao objetivo final de distribuir pelo Sistema Único de Saúde (SUS) medicamentos produzidos a partir de componentes da cannabis”, afirma o pesquisador da Fiocruz Hayne Felipe, coordenador do Grupo de Trabalho Cannabis Medicinal da instituição.

Entre os temas que serão debatidos estão “Geopolítica e indústria da Cannabis Medicinal”, “Cannabis e Autismo” e “Cannabis e Psiquiatria: Experiência Clínica”.
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu levar à consulta pública a proposta para liberação do cultivo e da produção de maconha no país para fins medicinais e científicos. A nova regra prevê o plantio restrito a lugares fechados por empresas credenciadas. As associações e familiares de pacientes têm hoje autorização na Justiça para a produção do extrato de canabidiol.

"Para a Apepi é motivo de muito orgulho ter a Fiocruz, uma instituição tão importante e relevante para o Brasil, como parceira fundamental na realização da segunda edição do seminário Cannabis Medicinal, um olhar para o futuro. Em 2016, levamos a pauta da cannabis medicinal para a Fiocruz, onde fomos acolhidos e apoiados com toda a seriedade, comprometimento científico e mais uma demonstração de compromisso verdadeiro com a sociedade brasileira”, afirma a diretora da Apepi. (Agência Fiocruz de Notícias)