Surge um novo Jalapão da consciência plural de seus líderes políticos

  • 23/Jun/2019 19h55
    Atualizado em: 23/Jun/2019 às 19h59).
Surge um novo Jalapão da consciência plural de seus líderes políticos Foto: Reprodução internet

*Por Goianyr Barbosa

As magistrais e sedutoras belezas naturais que circundam e aformoseiam o território do Jalapão, contrastam, na realidade, com o desleixo, o desamparo social, econômico e governamental de séculos contra a sua impávida gente. Uma suposição, e talvez a mais verossímil, para tal descaso, seja o volume e a insignificância eleitoral que a região possui. Pela análise de um experiente prefeito da localidade, as costas dos governantes sempre voltadas à região devem-se, de fato, ao escasso peso de votos, além da vasta distância, por exemplo, para se chegar nas cidades de Lizarda, São Félix e Mateiros. Aliás, estatisticamente as cidades de São Félix, Mateiros, Ponte Alta do Tocantins, Santa Tereza, Novo Acordo, Lagoa, Rio do Sono e Lizarda, cidades do território ‘jalapoeiro’ contam com 22.502 eleitores, segundo dados do TRE-TO de 2018, o que representa 2.29%% do eleitorado do Estado. Portanto, eis os motivos pelos quais grassa por ali uma atmosfera de escuridão e abandono, agravada pela inexistência de uma liderança local, nascida naqueles sertões, portadora de mandato, seja no âmbito estadual ou federal.

Diante de vexaminoso e dantesco quadro, cônscios de que “toda força só será fraca, se não estiver unida”, os oito prefeitos da aludida província se reuniram em LIzarda, no último dia 30 e deliberam criar o “Consórcio Intermunicipal para Promover o Desenvolvimento Socioeconômico e Ambiental do Jalapão – o Cide Jalapão”. O órgão será presidido nesta primeira etapa pelo prefeito de São Félix, Marlen Ribeiro, com Suelene Lustosa (Sussu), de Lizarda, na vice-presidência. Segundo Marlen, o objetivo do Cide Jalapão é lutar pelas melhorias da região de maneira integrada, promovendo uma gestão associada com o foco imediato nas melhorias das condições das estradas, do turismo, na área ambiental, saúde, dentre outros serviços públicos. No mesmo ensejo foi dado passo à criação da “Associação para o Desenvolvimento Humano e Social do Jalapão, cujo nome de fantasia é Associação de Primeiras-Damas do Jalapão”. A entidade, composta de sete primeiras-damas e um cavalheiro, vai ser comandada pela primeira-dama de Mateiros, Mariene Martins, já com metas de atuar nas áreas sociais e da promoção humana.

Segregados e abandonados pelos poderes constituídos

A propósito, mesmo que o Jalapão fosse desprovido de seus abundantes mananciais de belezas, sem o turismo como fator relevante, garantir a inclusão social daqueles povos, através de políticas que contemplem o acesso como prerrogativa inegociável de ir e vir aos destinos programados é, sem dúvida alguma, um direito líquido e certo de cada habitante. Ora, trafegar pelos TO-020 e TO-245, entre Novo Acordo e Lizarda, percurso de 170 km de estradas de terra, com tempo estimado de viagem de 6h 55min, em deploráveis condições, abandonadas, não deixa de ser uma política governamental de segregação contra um povo e uma região, a qual já perdura décadas e décadas. A referida rodovia, a título de informação, é de significativa importância, bastante utilizada aos que partem de Palmas ao Nordeste, cuja distância é encurtada, por exemplo, em cerca de 400 km na ligação com Fortaleza.

Igualmente repleta de más condições, encontram-se as estradas que ligam Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins aos principais santuários do Jalapão, diga-se, São Félix e Mateiros. A rigor, quem sai de Novo Acordo até Mateiros, passando por São Félix, ou seja, pelos TOs-030 e 110, locomove-se por cerca de 228 km por caminhos quase inacessíveis, com riscos à vida humana. Porém, quem se aventura de Ponte Alta a Mateiros, a distância é de 160 km, através da TO-255, com duração média de viagem de 5 horas, por conta do péssimo acesso, constituído de solo predominante arenoso, com os freqüentes atoleiros e bancos de areias por todo o percurso. Tanto em Mateiros como Lizarda e São Félix existem os chamados “nascidos nas estradas”, ou seja, pessoas cujas mães deram à luz pelos caminhos, em razão da demora da chegada aos centros médicos, ou mesmo pelos sacolejos ocasionados pela deformação das estradas. Portanto, o novo Jalapão que os seus líderes estão lançando os fundamentos, tem como premissa o estabelecimento de um pacto de responsabilidade com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a fim de os tais reconheçam e defendam os direitos daquela gente de ter um modo vida absolutamente compatível com os de outras regiões tocantinenses. A rigor, o Jalapão é um patrimônio soberanamente tocantinense, mas com transcendência para todo o território nacional e internacional. Isto posto, a presença do Estado naquela localidade, com políticas desenvolvimentistas, nos campos sociais e econômicos, é uma condição sine qua non para que o progresso e a melhoria das condições de vida cheguem de forma socializada e justa.

Turismo planejado e sem ganância econômica

Outra preocupação dos líderes “jalapoeiros”, congregados nas entidades ora em estágios embrionários, está voltada para a oferta da atividade turística de maneira sustentável, que satisfaça as necessidades dos turistas, da indústria do turismo e das comunidades locais, sem comprometer a cultura local dos residentes, à proteção dos recursos ambientais, além da conscientização da comunidade rural para a não comercialização de suas propriedades como já vem sendo praticada em grande escala. Na realidade, no Jalapão o turista chegou antes do turismo, ou seja, sem haver um planejamento prévio e organização da localidade para recebê-lo, embora já fosse prevista uma invasão do local, sobretudo após a exibição da novela “O Outro Lado do Paraíso”, pela Rede Globo.

Em resumo, são nesses cenários de encanto e magia que comunidades inteiras vivem ilhadas, interditadas de cesso às políticas governamentais, vedadas, por outro lado, ao mais irrestrito direito de possuírem estradas trafegáveis, e, convenhamos, sem estradas trafegáveis a saúde de um povo está submetida a um cotidiano de riscos e, com isso, os reflexos na educação são inumeráveis, como exemplo diário o transporte de alunos sendo obstáculos nas estradas de bancos de areia no verão e lamaçais no inverno. Por isso, é preciso urgentemente mirar os investimentos em estradas para depois começar falar em turismo, antes que ocorra o abandono e um colapso em toda a atividade turística na região.