Confissões de um quase morto-vivo

  • 22/Jun/2019 09h39
    Atualizado em: 22/Jun/2019 às 09h42).
Confissões de um quase morto-vivo Foto: Divulgação

Meus caros amigos e leitores, vocês devem estar estranhando mais de dois meses sem notícias, nem mesmo sinal de vida, como se eu tivesse me despedido deste mundo, aberto um buraco e me enfurnado num lugar qualquer sem endereço nem itinerário.

Depois de meus leitores observarem que nunca mais saiu um artigo ou uma crônica com minha costumeira e quase diária assinatura, agora, passada a turbulência, e corroborando o que escrevi recentemente, justifico.

Como devem saber, fui submetido a uma delicada cirurgia para extirpar um câncer de bexiga antes que se espalhasse numa indesejável metástese.
Não fosse o desvelo e os cuidados de minha esposa, Simone, leal companheira, cuidando de tudo, não sei mesmo se poderia sucumbir.

Quando me dei por mim, já estava na UTI de um hospital qualquer, com ela a meu lado, e passei dois meses praticamente inconsciente, sem me dar conta se estava vivo ou morto. Mas com a graça de Deus e com a preciosa presença de familiares e amigos, às vezes fiquei com a sensação de passar furtivamente momentos nas bordas da eternidade.

Seria enfadonho enumerar o número de pessoas que foram me visitar, mesmo porque, sem dar parte de mal-ouvido ou mal-agradecido, confesso que só rápidos lampejos de farrapos de lembrança vez por outra trazem alguma imagem de amigos e familiares ao redor de meu leito, diante de um corpo que sobrevivia mercê de um emaranhado de tubos e fios, sondas e auxiliares na alimentação para minha precária sobrevivência.

Depois que recebi alta do Neurológico, fui saber, por minha mulher e amigos mais chegados, que fiquei 15 dias em coma induzido e mais de 45 na UTI mas, embora tenha estado todo este tempo literalmente fora de mim, soube isto por notícias posteriores dos amigos que foram visitar-me inconsciente em um leito que se assemelhava a um leito de morte e os circunstantes mais se assemelhavam a participantes de um velório. Mas não era minha hora ainda.

Até hoje puxo pela memória em busca de um retalho de lembrança, mas cheguei à conclusão de que nada somos diante da eternidade. E Deus é que sabe o que faz.

Por outro lado, pude aquilatar o quanto sou estimado, pelo número de grupos que se formaram em oração nas redes sociais, que, sem dúvida, foram a mola-mestra de minha recuperação.

Abaixo de Deus, a dedicação, dia e noite, de minha família e a solidariedade de amigos, tudo foi fundamental para minha sobrevivência, pois para quem me viu antes e me vê agora não tem dúvidas de que aqui em minha vida operou-se o bafejo de um grande milagre.

É o milagre da vida. Cada vez que Deus nos livra da morte por algum motivo é sinal de que ele ainda nos deixou alguma missão para terminar de cumprir, assim como cada criança que nasce traz no primeiro vagido a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança nos homens.

Deus nos proteja e vamos tentar cumprir a contento o que Ele nos delegou. E só me resta agradecer, do fundo do coração, a cada amigo e familiar pelas orações pelo meu retorno, agora revigorado por uma força que nem sei explicar, volto a escrever minhas pálidas linhas, pois enquanto vida eu tiver, mais tenho que produzir, pois parece que ainda não chegou minha hora.

*Por Liberato Póvoa - Desembargador aposentado, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprens - AGI - escritor, jurista, historiador e advogado. e-mail: liberatopovoa@uol.com.br