Coisas do outro mundo: o causo de Quelé da Beira d´Água, que conversou com o finado coronel Afonso Carvalho

  • 29/Mai/2019 09h46
    Atualizado em: 29/Mai/2019 às 09h49).
Coisas do outro mundo: o causo de Quelé da Beira d´Água, que conversou com o finado coronel Afonso Carvalho Foto:

A vida no outro mundo sempre foi cercada de mistério. Muitos dizem que tudo se acaba quando a gente morre, e esse negócio de defunto aparecer pra conversar com os vivos é coisa de abusão do povo. Outros dizem que morto aparecer em sonho não prova nada, pois assim como a gente sonha com coisa ocorrida na vida diária, pode muito bem sonhar com alguém que já morreu.

Pois vão confiando!

Quando militei na imprensa mineira, batendo na tecla de minha eterna e in¬sossa brejeirice, fiquei cansado de receber cartas de leitores, que, aludindo causos da¬qui que espalhei por lá, contavam passagens acontecidas, como que homologando as matutices tocantinenses que eu narrava. Falavam de tesouros doados em sonho, de avisos, de uma série de coisas ocorridas com eles lá, que, se eram mentiras, isto ficava era nas costas deles, e não da minha invenção.

Todo mundo tem um certo medo de fantasmas, talvez devido àquele clássico temor do desconhecido, do misterioso. Conheci muita gente intimorata, gente que vive em locais sombrios ou perambula à noite através de taperas e diante de cemitérios como se andasse bem fagueira no meio da rua durante a luz do dia. Um deles é Quelé, que assistia na Beira d'Água, conhecido pelo seu arraigado ceticismo com relação a visões a coisas do outro mundo. Tanto é que atravessava tranqüilamente a pavorosa e terrifi¬cante Tapera da Oração, misto de tapera e cemitério, por onde - dizem - ninguém pas¬sava escapo de uma latumia qualquer. E o destemor de Quelé já o fizera famoso naque¬las rodeanças. Não se sabe de um só episódio em que sua coragem fraquejasse ou que sua calma fosse posta em dúvida, que ele não tinha um fanisco de vacilação e medo.

Pois foi exatamente ele que passou por uma verdadeira prova de fogo: em 1976, morreu o influente coronel Afonso Carvalho, chefe político lá de São José do Duro, em cujas terras Quelé morava, e a quem chamava de "meu tio" e pedia benção, segundo o costume interiorano de se chamar assim os mais velhos.

Estava Quelé deitado numa rede, montando guarda em frente ao paiol de mantimento (que estava sem porta). Noite calma. Quelé pitando o cigarrinho de pa-lha para espantar muriçoca, enquanto o sono não chegava.

Súbito, sentiu que lhe puxavam o punho da rede. Levantou-se e viu um vulto. Foi lá mais perto e conseguiu divulgar o coronel Afonso, pelo jeito, pelos cabelos agri-salhados e depois pela fala, quando este começou a conversar com ele.

Mas, estranhamente, o coronel permanecia de costas, e por mais que o cora¬judo Quelé quisesse encará-lo de frente - que medo ele não tinha um trisco -, o defunto sempre se virava, como se estivesse poupando o destemido Quelé de uma pavorosa visão.
E de costas o coronel falou com ele, pedindo que desse um recado a Mariqui¬nha, sua mulher (minha prima por sinal): era para ela mandar celebrar uma missa ofe-recida ao Divino e comprar vários quilos de carne para dar de esmola à pobreza, men¬cionando até nomes de alguns pobres que deveriam receber a esmola. O coronel men¬cionou que já mandara celebrar a missa em vida, mas isto nada valeu, porque ele dera, como espórtula, ao padre, uma importância muito grande só por ostentação e vaidade; e que mandasse Mariquinha comprar a carne e não matar uma rês (pois ele era rico) para que não parecesse ostentação; que o fizesse sem que ninguém soubesse.

Perguntado (pois Quelé não só o ouviu, mas conversou com ele), o coronel disse que não aparecera para Mariquinha porque ela não iria resistir. Aí, Quelé fra¬quejou um pouco ao pedir:

- Mas o senhor não vai voltar aqui outra vez, não?

- Se você não der o recado - respondeu o coronel, antes de desaparecer -, eu volto para cobrar!

No dia seguinte, Quelé ganhou a estrada da Beira d'Água pra rua, para cum¬prir o desejo do coronel Afonso Carvalho.

Sobre aparições assim, não existem dúvidas, pois são incontáveis os casos re-gistrados e até explorados no cinema e na TV. É claro que existem corajosos como Quelé da Beira d'Água. Mas, aos poucos, os derradeiros incrédulos acabam por acre¬ditar. Podem até continuar destemidos, mas cientes de que os habitantes do mundo dos espíritos vêm de vez em quando para conversar com os vivos. E quase sempre para um contato com o fito de comunicar-se, pois esse negócio de assombrar fica mesmo é por conta da frouxura de nós, viventes.

*Por Liberato Póvoa - Desembargador aposentado, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprens - AGI - escritor, jurista, historiador e advogado
liberatopovoa@uol.com.br