O empenho em desvendar o atentado da vereadora Marielle Franco não foi o mesmo do que Bolsonaro sofreu

  • 07/Dez/2018 08h54
    Atualizado em: 07/Dez/2018 às 08h57).
O empenho em desvendar o atentado da vereadora Marielle Franco não foi o mesmo do que Bolsonaro sofreu Foto: Divulgação

O assassinato da vereadora do PSOL e líder comunitária carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, na noite do dia 14 de março deste ano, veio trazer uma grande comoção nacional, com repercussão no exterior, quando, merecidamente colocaram o Brasil na incômoda posição de um dos líderes mundiais na violência. Mas, convenhamos, fato virou palco de embates ideológicos. Politizaram sua morte.

Aí vem a pergunta: por que tanta comoção, se mais de 60 mil brasileiros morrem por ano em condições semelhantes, aí incluídos centenas de policiais? Por que só a morte da vereadora teve peso para mobilizar tanta gente em busca de identificar o autor do atentado? Fica-se na dúvida se está se consagrando a hipocrisia ou o desrespeito.

Até o momento em que escrevo estas linhas, não se tem notícia efetiva de quem cometeu o crime, norteando-se a mídia por indícios, resumidos na prisão de suspeitos. Só isto, mas as investigações prosseguem.

Por que só foi dada ênfase à morte de Marielle? Existem centenas de mulheres "incríveis e corajosas" que morrem todos os dias no Brasil, em consequência da falta de honestidade, de pulso, de coragem, de energia e de efetividade no combate ao crime, dos que demagogicamente são paparicados pelos mesmos que choram a sua morte com lágrimas de crocodilo em busca de poder.

Agora, a partir de janeiro, com a assunção do experiente ex-juiz Sérgio Moro como ministro da Justiça e Segurança Publica, novos rumos certamente as investigações tomarão.

Não se pode comparar o alcance dos dois atentados, pois o que sofreu Marielle se confunde até mesmo com possível vingança do crime organizado, enquanto que o atentado ao presidente eleito tem contornos nitidamente políticos; foi escolhido um executor que saiu praticamente do nada: um desempregado sem relações de amizade e de parentesco, que sintomaticamente seguia os passos de Bolsonaro, a ponto de ter ido esperá-lo em Juiz de Fora hospedado ali com antecedência; o instrumento de perpetração do crime (que normalmente é uma bomba ou arma de fogo) foi uma faca, que, para cometer o crime exigia uma grande proximidade da vítima, dando a entender que o aparato de segurança de Bolsonaro daria cabo do terrorista solitário, matando-o e apagando qualquer vestígio. Acresça-se a isto o fato de que Adélio Bispo de Oliveira fora filiado ao PSOL, partido nitidamente oposição a Bolsonaro.

A programação da campanha presidencial de Jair Bolsonaro previu a chegada do candidato a Juiz de Fora, às 11 horas de 6 de setembro. Bolsonaro visitaria o Hospital Ascomcer e participaria de um almoço com lideranças empresariais. Em seguida, faria um ato público em frente à Câmara Municipal da cidade, no Parque Halfeld, de onde iria para a Praça da Estação, onde realizaria seu comício. Assim como os outros candidatos, Bolsonaro era escoltado por agentes da Polícia Federal. Jair Bolsonaro foi esfaqueado enquanto era carregado nos ombros por simpatizantes, em um evento de campanha na rua Halfeld, uma das mais importantes da região central da cidade mineira de Juiz de Fora. Foi ferido no abdome, sofrendo uma lesão em uma importante veia abdominal, quase vindo a óbito ali mesmo.
Mas o plano frustrou-se: o esfaqueador foi preso incólume e recolhido à prisão, de onde foi removido para um presídio de segurança máxima, onde a Polícia Federal poderia investigar com mais tranquilidade.

Salta aos olhos e desafia a inteligência dos mais leigos dos leigos o fato de a Policia Federal não ter apresentado a perícia dos celulares e ”notebooks” que o desempregado guardava no hotel onde se hospedara; não ter averiguado a razão de uma equipe de caríssimos advogados ter-se deslocado e jatinho particular para Juiz de Fora, apresentando versões contraditórias sobre a pessoa que teria custeado a defesa de um desempregado, não bastasse as redes sociais terem exibido fotos de Adélio com políticos nitidamente interessados na eliminação do hoje presidente eleito.

Que a morte de Bolsonaro foi encomendada, não há dúvida. Resta saber por quem.

Parece que a PF chegou à simplista conclusão de que o atentado foi o que os americanos chamam de ato de um “lobo solitário”, o que não cabe na cabeça de ninguém, como não cabe a conclusão de que o dinheiro depositado na Caixa Econômica Federal, que superava a casa dos 300 mil reais era fruto de suposta indenização trabalhista recebida por Adélio. Que foi ato encomendado, isto foi.

E em que pé andam as investigações sobre o comportamento dos advogados, o que gerou representação contra eles junto à Procuradoria Geral da República?

Agora, que nos encontramos na azáfama dos trabalhos da equipe de transição, parece que se esqueceram da facada que, sem dúvida, impulsionou a vitória de Bolsonaro neste país tangido por um indefectivel “coitadismo” (embora a vitória do capitão já estivesse escrita nas estrelas), e com atentado ou não, o sucesso de sua campanha estava perfeitamente delineado.

Agora, sem cogitar em represálias, pois Bolsonaro tem-se mostrado conciliador (embora firme nos seus propósitos), com toda a certeza o futuro ministro Sérgio Moro, conhecedor dos meandros das pilantragens chegará a uma conclusão, pois a prisão do solitário terrorista já forneceu elementos necessários para que uma investigação séria conclua o caso.

E o simples traçar dos planos do futuro Governo já está colocando em polvorosa setores outrora intocáveis.

Rememoremos fatos que dão o que pensar: 1. Em 06/09/2018, Bolsonaro é esfaqueado em Juiz de Fora/MG; de imediato, o bandido passou a ser assessorado pelo escritório do advogado Zanone de Oliveira, um dos mais caros de Minas; 2. em 18/09/2018, morre a dona da pensão onde o terrorista que atentou contra Bolsonaro estava hospedado, o que pode ser mera coincidência, pois ela já se encontrava doente; 3. em 17/10/2018 um homem foi encontrado morto nessa mesma pensão, após ter sido hóspede e já estava lá havia três meses; 4. em 19/10/2018, um “empresário” de SP vai até Juiz de Fora com dólares em espécie, no valor equivalente a 14 milhões de reais; supostamente, iria fazer uma operação de câmbio na cidade (mas quem, em sã consciência, sairia de SP para trocar dólares no interior de Minas?); 5. a operação não deu certo e houve um tiroteio, quando um policial civil foi ferido e morreu, e quatro policiais de São Paulo foram presos; 6. o dono da empresa transportadora de valores que levava o dinheiro também foi baleado e morreu; 7. dinheiro não valeria nada, seria falso (uma caixa de dinheiro falso foi apresentada à imprensa); 8. depois, o advogado Zanone de Oliveira, que assistiu o esfaqueador, disse que deve abandonar a causa por falta de pagamento de honorários, exatamente seis dias após aquele dinheiro falso do “empresário” ter sido apreendido.

O empresário que levou os dólares de São Paulo para Minas fugiu de jatinho. A empresa dona do jatinho está enrolada na Lava Jato, pois foi utilizada por José Dirceu para lavagem de dinheiro, e prestava serviços para o governo petista de Minas. Agora, descobriu-se, que quem estava advogando para o dono da empresa transportadora de valores era o mesmo Zanoni, advogado do esfaqueador de Bolsonaro.

O fio da meada foi descoberto. Assim como Teseu saiu do labirinto de Creta seguindo o fio do novelo que lhe forneceu sua amada Ariadne para marcar o caminho da saída, assim também a prisão de Adélio pode ser perfeitamente um fio que possibilitará achar a saída desse mistério, que de mistério nada tem; e os mandantes, através de uma investigação bem conduzida trará muitas surpresas, o que para mim será uma novidade.. de cabelos brancos.

*Por Liberato Póvoa - Desembargador aposentado do TJ/TO, membro fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa e da Associação Brasileira de Advogados Criminalistas, escritor, jurista, historiador e advogado liberatopovoa@uol.com.br