Não me convidaram para a festa dos 30, mas eu estava lá

  • 30/Nov/2018 13h50
    Atualizado em: 02/Dez/2018 às 15h43).
Não me convidaram para a festa dos 30, mas eu estava lá Foto: Divulgação

O evento em comemoração aos 30 anos de criação do Tocantins, promovido pela Assembleia Legislativa, no último dia 20, sob o comando presidencial da deputada Luana Ribeiro (PSDB), em que duas dezenas de personalidades foram homenageadas com a Comenda Ordem do Mérito do Legislativo, continua rendendo comentários, reparações, argumentos contra e a favor, enfim, quanto à iniciativa e ao propósito do evento não há óbices a se levantar, a meu ver. No entanto, não estar entre os agraciados com a Comenda abnegados heróis da luta autonomista, paira no espaço um nevoeiro de dúvidas, ou seja, faltou da parte dos parlamentares, bem como do cerimonial da Casa um estudo esmerado, ou mesmo a criação de uma comissão para que nomes fulgurantes não ficassem de fora. Desconhecimento da história? Fatores políticos? Intencionalidade? Vamos aos fatos!

O abalizado livro do jornalista e publicitário José Carlos Leitão, tocantinense de Novo Acordo, ex-presidente da Conorte (Comissão de Estudo dos Problemas do Norte Goiano), lançado em Palmas, no ano de 2001, numa noite airosa e muito concorrida, sob o título: “TOCANTINS, EU TAMBÉM CRIEI”, relata a saga histórica, através dos séculos, de como homens e mulheres destemidos, impelidos por um ideal de liberdade e de conquista abraçaram a causa de possuir um Estado livre sem as afrontas opressoras dos mandatários goianos. Portanto, chegando à plenitude dos tempos essa liberdade raiou, aconteceu pelas mãos dos filhos, os quais não recuaram dos sonhos de seus ancestrais. De maneira que, a obra de Leitão, a rigor, não exclui os personagens da batalha heróica, apenas os coloca em seus graus de importância, trazendo às cenas dos fatos muitos que foram lançados e continuam na vala do ostracismo.

Ora, é inimaginável que numa solenidade de grandeza colossal, com o propósito de comemorar a criação de um Estado, fruto de séculos de peleja, vultos como o ex-governador de Goiás Henrique Santillo não figure entre os principais homenageados. Aliás, sem a bravosidade de Santillo, interferindo junto à Assembleia Constituinte e tendo em suas mãos o poder discricionário de decidir SIM ou NÃO para que Goiás fosse desmembrado do Norte goiano, talvez estivéssemos sem perspectivas, vegetando pelas estradas escuras e pelos desertos do subdesenvolvimento. Outra figura de destaque, o engenheiro José Maia Leite (in memoriam), presidiu a Conorte e a sua inesquecível Mansão Tocantins, em Brasília, foi palco de grandes encontros acerca da criação do Tocantins. Sem falar, por exemplo, que custeou durante anos um escritório em área nobre de Brasília, o qual servira de ponto de apoio às reuniões da entidade e as estratégias de batalha. É lamentável que Maia não tenha tido ainda o reconhecimento que seus feitos merecem.

Por outro lado, como negligenciar do rol de homenageados a figura do Padre Ruy Rodrigues (in memoriam), portuense, intelectual, ex-secretário da Educação do governo Mauro Borges e Moisés Avelino, um dos fundadores da Casa do Estudante do Norte Goiano, a brilhante Cenog? De igual modo, o ex-senador tocantinense João Rocha, uma vez que na condição de jornalista e administrador do grupo Jaime Câmara, as notícias do movimento pela criação do Estado brotavam através de seus escritos semanalmente, durante décadas nas páginas de O Popular. Nessa galeria de homenageados, como ficar ausente o economista e ex-deputado estadual Célio Costa? Quando propagar o movimento, as mensagens eram basicamente externadas através de falas eloquentes, fora de sua pena o grande estudo de viabilidade sócio-econômica do então Norte goiano, o qual impressionou as autoridades do Governo Federal, parlamentares no Congresso pela riqueza de detalhes das descobertas econômicas do futuro Estado.

Na realidade, são tantos os benfeitores dessa valedoira causa, dos quais ainda nomino o Brigadeiro Lysias Rodrigues (in memoriam), autor de vários artigos editados no Correio da Manhã nos anos 30, defendendo a autonomia do Tocantins. Foi, ainda, de autoria de Lysias o projeto de criação do Território Federal do Tocantins, entregue ao presidente Getúlio Vargas no regime do Estado Novo. E a lista para ser imparcial e representativa não poderá excluir o ex-juiz federal, ex-deputado e presidente do Comitê Pró-Criação do Estado do Tocantins, Darci Martins Coelho, o ex-deputado Brito Miranda, ex-deputado José dos Santos Freire, jornalistas Varterli Guedes, Sandra Miranda e Otávio Barros, economista Edmar Gomes de Melo, Advogados José Cardeal dos Santos e Pedro Cursino, Geraldo Ayres, Joacir Camelo Rocha, Carlos de Laet Bezerra, senador Vicente Alves, ex-governador Moisés Avelino, o tipógrafo João Matos Quinaud, Juiz Feliciano Braga Machado, Dr. Osvaldo Ayres, Fabrício César Freire, advogado Getúlio Matos, professora Iara Braga, Cleusa Aires e não listo neste artigo parentes consanguíneos e afins meus, para livrar-me de acusações de estar advogando em causa própria, embora dignos da premiação.

Em resumo, as homenagens ao ex-governador Siqueira Campos, ao ex-senador João Ribeiro e aos ex-deputados Totó Cavalcante e Baylon Pedreira, ocorridas semana passada, são inquestionáveis e tempestivas, posto serem luzeiros de primeira grandeza nessa constelação de heróis e heroínas que lutaram pela independência política do Norte goiano. Para muitos tocantinenses não basta, por exemplo, só homenagear essas figuras, e mais: pessoas como ex-deputado Totó Cavalcante, José Carlos Leitão, o economista Célio Costa, o médico renomado Neilton Araújo e tantos outros que poderiam hoje estar prestando relevantes serviços ao Estado, continuam habitando na longitude do esquecimento dos que chegam ao poder no Palácio Araguaia. Em seu pronunciamento, o deputado Ricardo Ayres enalteceu a grandeza do evento e fez um alerta para o cabedal de problemas que tem infelicitado o Tocantins. Nesse sentido, cobrou do governo ações planejadas e transparentes para o enfrentamento de problemas como os da saúde, da crise fiscal, desemprego e do aparelhamento do sistema modal de transporte.

Por Thiago Marcos Barbosa de Carvalho - Advogado, inscrito regularmente na seccional do Tocantins sob o nº 8321.
E-mail: thiagombarbosa.advogado@gmail.com e barbosaferreiraadv@gmail.com