Em 30 anos de criação, de Siqueira a Carlesse, nenhum governador eleito possui naturalidade tocantinense

  • 01/Nov/2018 17h20
    Atualizado em: 01/Nov/2018 às 17h23).
Em 30 anos de criação, de Siqueira a Carlesse, nenhum governador eleito possui naturalidade tocantinense Foto: Divulgação

O Estado é jovem, contudo as práticas oligárquicas e clientelistas em curso desde a sua criação são as mesmas de outras unidades da Federação. Nem mesmo a chegada em massa de migrantes ao novo Estado ajudou a promover uma renovação nos arcaicos hábitos políticos. O que se viu, por exemplo, foi o replay do que já existia no outrora Norte goiano, ou seja, o clientelismo e o paternalismo de controle social. O modelo das dinastias foi inaugurado na nova unidade logo na primeira eleição ao governo, em 1988, quando Siqueira Campos e José dos Santos Freire, candidatos ao governo, lançaram e elegeram seus filhos à Câmara dos Deputados. De modo que, tanto Eduardo Siqueira como Freire Júnior estão em plena atividade política, com mandatos eletivos, provenientes de um sistema dinástico, que, aliás, vem fazendo escola.

Mas o que chama a atenção é mesmo o fato de nos 30 anos de existência do Tocantins, nenhum ocupante do Palácio Araguaia, eleito pelo sufrágio popular, possuir nascimento ou identificação civil com o antigo Norte goiano, hoje Tocantins. Lembrando que, nesses 30 anos, considerando que Mauro Carlesse fora eleito no ano em que o Estado fechava o ciclo de três décadas de surgimento, a média é de 10 anos para cada ocupante do Palácio Araguaia, ou seja, Siqueira Campos, Moisés Avelino e Marcelo Miranda. Desta forma e auscultando as biografias, Siqueira é natural de Crato (CE), Moisés Avelino nasceu em Santa Filomena (PI) e Marcelo Miranda, Goiânia (GO).

Algo de anormal dos aludidos governantes não terem nascido em berço tocantinense? Nenhum. Aliás, na luta obstinada de homens e mulheres pela separação do Norte de Goiás, uma das premissas basilares era justamente que a nova pátria seria um abrigo seguro a todos que desejassem se agrupar no novo território.

E mais que isso, todos eles já tinham raízes profundas com o antigo Norte, seja no ramo de negócios comerciais ou politicamente na ocupação de mandatos eletivos. Agora, o que está à disposição de historiadores e cientistas políticos é uma avaliação esmerada de como denodados tocantinenses, protagonistas da luta criacionista não vestiram ainda a faixa governamental, enquanto outros com limitadíssima participação histórica ou sem ela já chegaram ao pódio governamental. Exemplos: Carlos Gaguim, Sandoval Cardoso e Mauro Carlesse.

Quando se faz um passeio pela história recente da luta divisionista, precisamente do período em que antecede o ato criacionista pela Constituinte de 1988, ou em conversas com os ideólogos da luta emancipacionista, não há como ocultar o papel decisivo que a CONORTE (Comissão de Estudos dos Problemas do Note Goiano) tivera em organizar um grande movimento, o qual acendeu o sentimento de um povo, promoveu relevantes estudos, convenceu os altos escalões governamentais da Repúlbica e ainda coletou milhares de assinaturas, as quais ensejaram na Emenda Popular que, aprovada pelo Congresso Constituinte, transformou uma porção de 277.622 km² em um novo território federativo.

Pergunta-se: por que os idealistas, vitoriosos na jornada de conquistar a terra sonhada e prometida não tomaram posse efetiva da mesma? Por que essa gente se dispersou no momento da conquista se desfazendo da CONORTE, a qual deveria estar presente até hoje acompanhando o caminhar muitas vezes cambaleante do Tocantins? Ouvidos por mim, alguns partícipes da ex-entidade declararam que no primeiro governo instalado, diga-se, governo Siqueira Campos, muitos foram relegados, discriminados, preteridos por outros que não colocaram uma pá de cal a serviço da causa libertária. Na verdade, segundo apurei, o erro indesculpável da primeira gestão foi importar demasiadamente políticos de Goiás sem identificação com o novo Estado, muitos dos quais já desgastados pelos efeitos das urnas goianas. Mas, justiça seja feita, muitos tiveram proeminência no governo nascente, como foi o caso do juiz federal aposentado, Darci Martins Coelho, que após presidir com colossal eficiência o Comitê Pró-Criação do Estado do Tocantins, chegou ao posto de vice-governador do novo Estado, ao lado de quem é considerado por muitos o abolicionista do povo do antigo Norte goiano, José Wilson de Siqueira Campos, primeiro governante eleito.

Afinal, se de um lado o governo negou-se a dar oportunidades aos que foram protagonistas, como alegam, estes, por sua vez, erraram o alvo, quando se despegaram da CONORTE, que fora a grande vanguarda para a chegada na terra dos sonhos e se conformaram com as sobras e espaços limitados sem importância alguma. Por isso, talvez, o resultado da colheita não ter sido favorável aos que semearam e plantaram a boa semente numa terra profeticamente promissora já na visão dos antepassados. Enfim, não estão sabendo colher o que semearam.

Por Thiago Marcos Barbosa de Carvalho - Advogado, inscrito regularmente na seccional do Tocantins sob o nº 8321.
E-mail: thiagombarbosa.advogado@gmail.com