O lado obscuro das pesquisas eleitorais

  • 23/Out/2018 17h31
    Atualizado em: 23/Out/2018 às 17h38).
O lado obscuro das pesquisas eleitorais Foto: Divulgação

Com o fim do longo e fatigante processo eleitoral ocorrido no Estado, em que muitos candidatos ainda comemoram o triunfo nas urnas, ao passo outros lamentam o infortúnio de ter que apear dos mandatos ou de não ter sido alcançado suficientemente pelo sufrágio, um tema chamou e vem chamando a atenção da opinião pública, qual seja, as pesquisas de intenção de voto, que a cada eleição confunde a cabeça do eleitor, influenciam resultados, afronta a democracia com a publicação de dados inverídicos e manipulados, geralmente a serviço de um partido político, instituições ou mesmo de um candidato. Na realidade, isso ocorre nas barbas da Justiça Eleitoral sem que a mesma tome as reais providências.

Não obstante o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ter baixando normas rígidas quanto à publicação de pesquisas eleitorais, esse óbice não tem sido suficiente para barrar os institutos mal intencionados, bem como seus aliciadores. No geral, muitas pessoas estão de acordo que uma pesquisa, seja eleitoral ou de opinião, quando aplicado os métodos corretos é possível saber com exatidão o pensamento e as tendências dos eleitores de uma cidade ou região, até porque ela vem endossada por um profissional de estatística, um ramo da ciência. Segundo o consultor político e publicitário Arlênio Sampaio, é impossível realizar uma campanha política sem pesquisas, visto serem elas uma bússola que orientam na estratégia de campanha, na tomada de decisões, na escolha do melhor candidato, coligação e até na maneira de se comunicar com o eleitor.

Pois bem, a história das pesquisas eleitorais no Brasil tem sua gênese com a fundação do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), em 1942. Já em 1945, estreia cometendo seu primeiro equívoco sobre as eleições daquele ano, quando previu erroneamente a vitória do candidato a presidente Eduardo Gomes sobre o general Eurico Gaspar Dutra. Hoje, passados mais de meio século de atuação no mercado, o IBOPE coleciona em todo o país uma montanha de processos judiciais por erros claros e irreparáveis na divulgação de pesquisas fraudulentas, com o fito de influenciar na vontade popular. Contudo, um dos episódios mais acintosos, em termos de manipulação eleitoral ocorreu aqui mesmo, nas eleições de 2014 ao Senado. Faltando exatos dois dias para as eleições, o IBOPE divulgou uma pesquisa em que colocava na dianteira a então candidata Kátia Abreu com 56% dos votos válidos ante 31 % de Eduardo Gomes.

Portanto, abertas as urnas, o que se viu foi uma usurpação da vontade popular, posto que Kátia ficou com 41.64% dos votos válidos e Eduardo Gomes com 40.77%, diferença de 0.87%. Uma aferição maldosa e fraudulenta, passível de a empresa na época ser responsabilizada penalmente. Ora, se o IBOPE tivesse o mínimo de bom senso, passaria longe das fronteiras tocantinenses pelo legado vergonhoso que provocara. Porém, o que se viu recentemente, nas sondagens ao Senado, foi o malfadado instituto repetir as práticas da eleição passada, só que dessa vez com doses mais fracas. Afinal, essa prática descabida fora posta em curso há tempos por ocupantes do Palácio Araguaia, que decidiam, através de sondagens nos municípios, quem disputaria a chefia dos executivos municipais.

A partir daí e com muitos donos de empresas de pesquisas corrompidos, o que se tem visto é uma indústria de pesquisas falsas. Na eleição municipal de 2016, por exemplo, um conhecido instituto de Palmas insistiu, já na véspera da eleição, em colocar o ex-prefeito Raul Filho liderando com mais de 15 pontos percentuais sobre o candidato a reeleição Carlos Amastha. Na mesma eleição, em Porto Nacional, o mencionado instituto e outros sem a devida qualificação técnica, teimaram em colocar na dianteira da corrida eleitoral o candidato a reeleição, então prefeito Otoniel Andrade, quando até as crianças já cantavam pelas ruas a canção da vitória de Joaquim Maia.

Por sua vez, nas eleições deste ano repetiu-se o desvirtuamento das empresas de pesquisas. O instituto em questão sempre martelou em colocar um senador que fora candidato ao governo na suplementar na dianteira do processo. Já na véspera do pleito, trouxe Vicente Alves com 31%, Kátia Abreu com 19% e Mauro Carlesse com 15%. Em suma, apurados os votos, Carlesse obteve 30.31% dos votos válidos, Vicente Alves 22.22%, Carlos Amastha 21.41% e Kátia Abreu 15.66%. Foi notória a manipulação e a incongruência dos dados colhidos. Na eleição oficial de outubro deste ano, o mesmo instituto prospectou dados e persistiu em colocar o senador e candidato a reeleição à frente de todas as medições. Não teve êxito, o senador amargou a quinta colocação, bem distante dos números encontrados pelo “notável” instituto.

Todavia, o festival de pesquisas irregulares foi a tônica de outro instituto de pesquisas sediado na Capital, que também detém um veículo de comunicação. ‘Vaqueirando’ votos ao Senado da República, a poucos dias da eleição, indicou Ataídes Oliveira (25.42%), Vicentinho Alves (19.17%), Eduardo Gomes (16.92%), Paulo Mourão (12.66%), César Halum (11.59%) e Irajá Abreu (10.59%). O resultado, entretanto, difere diametralmente dos números oficiais, que foram: Eduardo Gomes (19.48), Irajá Abeu (16.82%), César Halum (14.45%), Vicentinho Alves (13.81%), Ataídes Oliveira (13.34%) e Paulo Mourão ( 10.80%). Numa tentativa ainda de confundir o quadro para governo, o instituto apontou Mauro carlesse com 42.90% e Amastha com 37.50%, quase um empate técnico dentro da margem de erro.

Nos dois casos, porém, longe de se pensar em erro técnico, transgressão proposital e calculada e que denigrem, sem dúvidas, a imagem de estatísticos que assinam trabalhos que se materializam em fraudes.


Por Thiago Marcos Barbosa de Carvalho
Advogado, inscrito regularmente na seccional do Tocantins sob o nº 8321.
E-mail: thiagombarbosa.advogado@gmail.com