Charque e Carne de Lata

  • 13/Set/2018 13h51
    Atualizado em: 13/Set/2018 às 14h15).
Charque e Carne de Lata Foto: Divulgação

E não dá rabeira, na linha do candieiro a sabedoria da agrociência alastrou-se no campo por inteiro, inúmeros acrescentamentos para canteiro do roceiro: agricultura de precisão, sementes tecnológicas, genética primer, e muito mais com as tais redes sociais.

Drones vaqueiros, internet no galinheiro, chocadeira na sala, parabólica no tronco, câmaras gerentes, pulverizadores eletrostático, herbicidas e inseticidas naturais, biocombustíveis, nanotecnologias e por aí além.

No caso das grandes produções, lá no estrangeiro apelidaram de Agrobusiness, devido a linha graduada de produção ser predominantemente exportadora, altamente mecanizada e tecnificada, fazendo a balança comercial brasileira segurar a taxa de inflação, acautelar o risco Brasil a não disparar ladeira abaixo e fazer a alegria da economia do País.

Nas pequenas propriedades rotuladas como agricultura familiar, no aprumo de porco tirando fotos em passeios cênicos, encontramos também uma variedade de máquinas e ciências à mercê dos sertanejos urdirem nas suas atividades de modo a tornarem os dias de labutas mais fáceis sob sol ou chuva. O alvará é para produzir uma grande quantidade com atributo para a grande boca do mundo: os chineses.

Na outra banda desta parafernália todo o lucro do produtor rural, sacaneado como sapo com sal nas costas, sem querela - onde está a competividade comercial e sua satisfação pessoal¿- (interrogação de cabeça pra baixo), o agropecuarista está plantando bananeira esterio. Estas ditas tecnologias têm seus custos bem salgados, em contas fora do cocho saleiro. O produtor está tirando na carne e fazendo charque para durar mais tempo sem geladeira ou cortando as gorduras e fazendo carne de lata, pra mesma maneira.

Ilustrando como está a tecnologia no campo, dia desses me contaram que uma equipe de televisão, que fazem reportagens de roças, chegou numa fazenda aqui na redondeza, para fazer um registro sobre a paridela bovina.

Uma certa Dona Vaca ia ser mãe de um bezerro de proveta. Não fora avisada da filmagem e tampouco de que teria que adiantar o parto. Contudo podem ter certeza, Dona Vaca agüentava nos cascos e pela sua exterioridade, aparecer na TV era tudo que ambicionava na vida. Confortavelmente deitada sob a sombra de uma Guapeva ruminava no bem-bom e mantinha-se calma para ser convocada para o próximo Big Vaca Brasil. Assim como muitas por aí, queria ser celebridade de TV.

As tecnologias de ribanceira são feitas em sua grande batelada para a agricultura de commodities por empresas privadas. Poucas as instituições de pesquisas, mesmo as públicas, que se preocupam em fazer técnicas para serem usadas pelos pequenos produtores. Estes, na maioria das vezes, para ter o que plantar ou criar utilizam das tecnologias fabricadas para o grande produtor. Exemplo como sementes de arroz e milho, novos capins, defensivos inteligentes e até objetos voadores não tripulados. A lógica afiança que o pacote a ser utilizado é incoerente com as posses do pequeno produtor, que no grosso das vezes aproveita só a metade da tecnologia ou menos que isso. E digo com todas as letras, coisas que muitos estão perdendo o hábito de usá-las, além é claro, um dos agravantes e que desgosta muito aos pequenos produtores é a ligeireza de envelhecimento das tecnologias. Não dá tempo de acostumar e desfrutar e aproveitar seu custo. Tirante mulher feia, cavalo capão e horta do lado de baixo do rego, imbatíveis até hoje, as tecnologias deveriam durar mais tempo.

Quanto as instituições de pesquisas de cunho público, para ajudar cuidar do AGROBrasil, em especial à agricultura para o abastecimento interno estão minguando ano a ano. Sem dinheiro para custear experimentos novos ou até validação de produtos ou culturas que estão em estoque nas tuias, situação que vem prejudicando até a subsistência do caboclo sertanejo. Imaginem a deslealdade para com o este homem do campo que planta milho na safra normal (outubro a fevereiro) e colhe em média 35 sacas de 60 Kg, quando colhe bem, agora fazendo uma comparação com um grande agricultor que planta milho com dinheiro das Treides (é ruim mas foi a salvação da lavoura do Brasil) a safrinha (fevereiro a março) e colhe 120 sacas por hectare.

Gosto muito das tecnologias, não tenho nem um pouco saudade do velho lampião Aladim e seu insuportável e inseparável querosene Jacaré. Ao mesmo tempo não tenho saudade de torrar e moer café e, muito menos de dar partida em fogão a lenha turbinado com chapa de sete bocas às cinco horas da manhã.

De volta ao parto e com a gravidade de emergência, o veterinário também querendo pegar uma ponta, não pestanejou, passou a faca (bisturi) na futura celebridade. Lógico, isto acontecido depois de uma dose de anestésico bovídeo. E toda movimentação para tirar o bezerro da barriga de Dona Vaca, a equipe de TV não perdia um lance sequer, tinha que garantir a viagem e a reportagem.

Acolá, no passado nas décadas de 40 e 50 do século XX, Cristalândia, Araguacema e Pedro Afonso eram cidades tecnológicas, foram protagonistas de um tempo respeitável no que tange ao mercantilismo no Rio Araguaia e Rio Tocantins e do mesmo modo, vanguarda no comercio, de onde saiam diariamente para Belém do Pará vários aviões cargueiros DC-3 carregados com jabás ou charque, produzidos com carnes dos famosos pés-duros ou curraleiros criados nas largas dos antigos currais novos esparramados entre as Várzeas do Rio Araguaia e Gerais da Serra Geral, que se estendia de Dianópolis, passando por Lizarda e findando lá pras bandas de Goiatins.

Estes charques por vezes chegavam lá na Europa durante o evento da Segunda Guerra Mundial, ajudando alimentar de sobremaneira no combate a gloriosa força militar aeroterrestre constituída na sua totalidade por 25.834 homens e mulheres, presentemente conhecida e respeitada como Força Expedicionária Brasileira e nossos aliados.

Hoje, seco e salgado mesmo esta é a conta do produtor rural, engolido pelos tributos patentes, fixados por políticas de arrecadação sem embira de medida e amasiada aos incentivos fiscais inconstitucionais, cuja querência é só atender os amigos do Rei e sobremaneira tudo governado pela República dos Banqueiros, no dizer por aí, às bocas largas e miúdas, junta e misturada igual carne de lata.

Se não gostar do nome: charque, jabá ou carne de sol, denominações brasileiras, levante a bandeira e gritemos todos juntos: - se é para o bem da roça e felicidades geral da agricultura e da pecuária, mudemos o nome para Jerked Beef.

O jabá, aquele substantivo feminino cujo significado encontra-se ligado à ação ou efeito de corromper, ou seja, de fazer degenerar; ação de seduzir por dinheiro, presentes ou quaisquer benesses a alguém, levando este alguém a se afastar da conduta reta, possui uma variante: corrupção, que só tem um jeito de acabar, votar no Charque ou Jerked Beef aproveitando este sol que temos no Tocantins e vamos fazer carne de sol, charque ou Jerked Beef comida de americano principalmente os Texanos. Nunca denominação de jabá.

Quanto a Carne de lata, na ausência de uma política tributária honesta, somos fritados até ficarmos completamente sem água e guardados em latas somos garantidos por muitos anos de usos. De vez em quando somos esquentados por um novo governante. Que delicia.

E no rabisco da verdade, não cartorial, mas na veracidade dos fatos, fotos, selado com o fio do bigode, podemos arrotarmos sembereba de bacaba: o PIB brasileiro é roceiro, vem da roça faceiro, nas antigas pelo movimento mulandeiro, entrou no Brasil por inteiro e agora nos buchos dos cargueiros foi pro mundo inteiro.

É por aí.


* Por Roberto Jorge Sahium - Engenheiro agrônomo, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica e Extensão Brasileira. Atualmente Secretário de Desenvolvimento Rural de Palmas.