Queimadas é fogo

  • 09/Jul/2018 15h11
    Atualizado em: 09/Jul/2018 às 15h19).
Queimadas é fogo Foto: Cerrado Editora

Valei-me São Floriano - que quentura dos zinfernos! Expressão dita dia desses pelo Seu Antonio Chochinho, morador rural acolá na cabeceira do Córrego Brejo Comprido, aqui em Palmas.

São Floriano é o santo da Igreja Católica considerado padroeiro dos bombeiros, dos limpadores de chaminés e protetor das pessoas envolvidas em incêndios. Sua festa é comemorada no dia 4 de maio.

Quanto ao Seu Chochinho como é conhecido, este tá seguro de razão para vozear isto sobre a quentura dos zinfernos. Dizendo ele, que praquelas bandas o Saci Pererê anda solto e dando muita dor de cabeça no Caipora primo primeiro do Curupira. Instinto desatinado, o perneta não pode vê pasto sujo, roça de coivara, lixo em quintal alheio, vai logo atiçando o pito-de-paia e colocando fogo em tudo pela frente.

Outras fontes dizem que Saci, recentemente ganhou uma prótese perfeita e tira onda de moto 150 cilindrada, dessas comuns por aí, comprada com recurso do PRONAF. Continua desatinado e incumbindo de diabruras por onde passa.

Deixando as lendas de lado, num papo reto, o que acontece mesmo é a rosa dos ventos batendo malho sobre atmosfera, avivando a ventania no treeiro costumeiro, azimutado, desce a cacunda da Serra do Taquaruçu, rebuçando os vales dos córregos São João à Sucupira. Tá sinalizando que a estiagem chegou trazendo na garupa uma dúzia de problemas como muita secura, poeira e fulingem, entre outras. Em si, trata-se de um acontecimento natural, ocorre todos os anos, não tem como ser evitada. Mas tal situação azucrina o juízo, mormente pela ideia da repetição das queimadas, também coisa de todos os anos. É que no mesmo aceiro e na rabeira dos sopros da Serra decorre o fogo, quando não queima tudo a sapecagem da pastagem nativa e do pasto manso é coisa corriqueira.

Nesta empreitada as chamas do fogo por onde passam lambe e esturrica o chão, mata os bichos do mato e os bichos de criatórios muitos ficam sem comidas. E, não inferiormente maldosa, na cauda da ventania vem a fuligem.

A fuligem, conhecida como negro-de-fumo, uma das variedades mais puras de carvão, apresenta-se na forma amorfa, constituindo uma dispersão coloidal de migalhas muito finas. Em coincidência com a baixa umidade do ar aqui nos nossos terreiros, o somatório tem agravante de respeito, segundo profissionais da saúde, contribui para complicações no sistema respiratório, consequentemente enchem os centros de atendimentos médicos de pessoas acometidas pela fuligem, aonde rádio e televisão deitam falação de nosso verão, tudo em vão, a conta vem pra toda a população.
Com relação aos profissionais da área agronômica a preocupação deriva de como os campos abrasados vitrificam e intensificam a degradação dos solos. Daí o diabo dita o pacote da miséria na sequencia infernal: “fogo, erosão e abaixamento do lençol freático”. Como coisa ruim sempre vem acompanhado (ditado popular), sobrevém o complexo trem-ruim da roça, que de longas datas passa sempre nas mesmas horas, nos mesmos dias e sempre nos mesmos meses.

A erosão é madrasta da voçoroca, que é apelidada de boçoroca ou buracão. É um fenômeno geológico que consiste na formação de grandes buracos causados pelas águas das enxurradas e intempéries em solos desprotegidos de vegetação. A voçoroca torna o solo pobre, seco, quimicamente morto e nada fecundo.

Incalculáveis são as perdas causadas, na socioeconomia como prejuízos, poderíamos debitar milhares de empregos e rendas roçados ao ano. No meio ambiente, os prejuízos são incontáveis.

Na mesma ribanceira e descendo na mesma correnteza a preocupação com relação a estas maldições na sustentabilidade, atinamos apoiado no bem, lembrar que tem como minimizar ou neutralizar estes impactos negativos, para isto existem muitas práticas agrícolas recomendadas à disposição do homem do campo e do agricultor urbano pelos organismos de assistência técnica e extensão rural brasileiro, como: plantio de árvores nas margens das calhas de drenagens, recuperar e manter as coberturas ciliares, fazer uso de tecnologias de preparo mínimo dos terrenos, calagem, fosfatagem, plantio em nivel, rotação de culturas, plantio direto na palhada, fixação do nitrogênio biológico, bioadubos e integração lavoura, pecuaria e floresta, tudo preconizados no programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono) etc.. Na pecuária aconselhamos como alternativas ao uso do fogo: uso da uréia no sal, banco de proteína, integração lavoura pecuária, silagem e feno em pé. Todas estas tecnologias aconselhadas você encontra na internet, ou poderão obtê-las diretamente com os técnicos que prestam serviços de extensão rural privada ou pública.

Em Palmas a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural e o Ruraltins escritório local são organismos públicos que tem obrigação de prestarem estes serviços aos produtores locais de forma gratuita e ainda com maquinas e implementos apropriados combater inicios ou potenciais pontos de erosões e ajudar na recuperação de voçorocas estabelecidas.

Só pra terminar, e agradecendo pela sua paciência, lembrando que a responsabilidade e a obrigação de combater as queimadas e a seca é de todas e todos de nós.


* Por Roberto Jorge Sahium
Engenheiro agrônomo, Membro da Academia de Letras da Assistência Técnica
e Extensão Brasileira. Atualmente Secretario de Desenvolvimento Rural de Palmas.