A estratégia maquiavélica de dividir para conquistar...

  • 25/Fev/2018 15h01
    Atualizado em: 25/Fev/2018 às 15h38).
A estratégia maquiavélica de dividir para conquistar... Foto:

Ricardo Abalém Jr.



É inegável a habilidade de alguns líderes tocantinenses na formatação das estratégias utilizadas para vencer as eleições. Inclusive, utilizando-se de conceitos arcaicos e maquiavélicos como dividir seus inimigos para continuar reinando. Método aplicado especialmente quando a força de um determinado líder já não é mais suficiente para vencer a guerra. Na maioria das vezes a estratégia é aplicada e o povo nem percebe, mas as vezes o tiro pode sair pela culatra. 
Vamos recordar as vitórias de Odir Rocha e Nilmar Ruiz na disputa pela prefeitura de Palmas em 1996 e 2000. Nas duas eleições o candidato Raul Filho aparecia nas pesquisas iniciais de intenção de voto bem pontuado e praticamente sem rejeição, quadro perfeito para uma projeção natural em detrimento ao desgaste (também natural) dos candidatos que estavam ligados ao poder.
Porém, Raul não conseguiu vencer nenhuma delas. O motivo: a União do Tocantins agiu com eficiência e "reza a lenda" incentivou empresários "parceiros" a injetar recursos numa terceira candidatura que, vinda do PMDB, dividiria os votos na oposição e beneficiaria os escolhidos por Siqueira e Eduardo. Era dividir os adversários e correr para o abraço. Até porque a injeção de apoio ($) na terceira candidatura era aplicada em doses precisas, suficientes só para atingir os resultados pretendidos.
Nas eleições de 1996, Odir Rocha (PPB) obteve 44% dos votos, Raul Filho (PSDB) 33% e Freire Junior (PMDB) 20% dos votos. Em 2000, Nilmar Ruiz (PFL) venceu com 49% dos votos, Raul Filho (PPS) teve 47% e José Augusto Pugliese (PMDB) 2%. Os números não deixam dúvida que a estratégia deu certo. 
Mas nenhum modelo estratégico é eterno. Prova disso foi a eleição de Carlos Amastha em 2012. Um cenário parecido onde o candidato do Governo, dessa vez o pevista Marcelo Lélis, se posicionava com os melhores índices de intenção de voto para as eleições na capital. Lélis já havia encomendado o terno quando surgiu a candidatura de Luana Ribeiro, reunindo o apoio do prefeito Raul Filho e o mais importante: o peso do nome e da história do pai, senador João Ribeiro - aposta quase unanime para governar o Tocantins dois anos depois. Inclusive, talvez se o slogan da campanha dela fosse "Luana é Ribeiro", ao invés de "Luana é Luana", o resultado teria sido diferente. Mas erros assim acontecem, especialmente quando a leitura do Marketing pauta a sensibilidade do Político numa campanha.
O fato é que estava novamente polarizada a disputa entre o candidato palaciano e a candidata do paço municipal (e filha do futuro Governador). E, novamente, apostaram na estratégia de incentivar uma terceira candidatura para tirar votos da Luana que se apresentava, inicialmente, com melhores perspectivas de crescimento comparadas à Marcelo Lélis, que nas pesquisas internas não ultrapassava a casa dos 45% (um excelente percentual, porém não o suficiente). 
De repente, como um toque de mágica... os deputados Wanderlei Barbosa e Sargento Aragão se apaixonaram pelo empresário colombiano Carlos Amastha, que tinha 1% das intenções de voto (embora nos bastidores, à época, comentava-se que alguns "empresários bondosos" incentivaram os nobres deputados).
Esse apoio político permitiu que a campanha ganhasse as ruas, e mesmo Wanderlei e Aragão se arrependendo no meio da campanha (quando perceberam que não controlariam Amastha) o colombiano fez de conta que não entendeu, até porque ninguém tinha dito a ele que sua candidatura era só para tirar uns 10% da votação que a Luana poderia alcançar. 
Sem amarras e com um discurso curto "eles dizem que não entendem o que eu falo, e eu digo que não entendo o eles fazem", Amastha venceu por duas razões básicas: primeiro, porque diferente dos candidatos que cumpriram esse papel (manipulados conscientes ou não) no passado - Freire Junior (1996) e Pugliese (2000) - ele tinha dinheiro para bancar sua campanha e independência política. E segundo, porque o povo disse um duplo não ao Palácio Araguaia e ao Paço Municipal. Arrisco dizer que o palmense entendeu o jogo de 1996 e 2000 e não aceitou ser manipulado novamente. O tiro inspirado em Nicolau Maquiavel, dessa vez não acertou o alvo.
Atualmente estamos vivendo um momento parecido, dessa vez na disputa pelo Governo do Estado. Tem gente apostando (obvio) em dividir os votos dos adversários para chegar ao segundo turno. E parece ser uma estratégia de interesse de quase todos os candidatos, exceto do Carlos Amastha que sonha com uma disputa polarizada (va soñando hombre...).
Uma candidatura nessa linha, com propósito de dividir os votos que buscam a "mudança", seria a de Mauro Carlesse. Eleito pelo PTB, deixou o partido logo no início da legislatura e buscou espaço numa sigla nova, que o permitiria avançar nos 139 municípios, e contou, para assumir o PHS, com as bênçãos palacianas. Na assembleia, com apoio de Eduardo Siqueira (habilidoso na arte da estratégia politica), tratou logo de frear o crescimento do grupo de parlamentares capitaneado por Damaso, elegendo o ruralista à presidência da casa. Foi um tiro estratégico para equilibrar as forças no parlamento. Bom para Carlesse, ótimo para Eduardo e uma incógnita para o Governo.
Eduardo já sabia com a experiência que teve com o Amastha, que Carlesse também não seria manipulado pela força do dinheiro ou pela intimidação da caneta. Então, mesmo sendo fundamental na sua eleição à presidência da casa, conhecia o risco de Mauro trilhar seu próprio caminho. E parece que foi o que aconteceu. O novo presidente manteve com o executivo um relacionamento de enfrentamento em favor dos deputados e soube muito bem usar a presidência do parlamento para se tornar conhecido no estado.
Mauro Carlesse oficializou sua pré-candidatura ao Governo do Tocantins com o apoio e na presença de 12 deputados estaduais - Eduardo (Siqueira) não estava presente. Uma demonstração clara que uma coisa foi a estratégia para se eleger presidente em 2016 e outra são as eleições de 2018.
Quando avaliamos o peso e os interesses (regionais) dos parlamentares que foram a Gurupi, uma coisa é certa, ficará difícil para o Mauro recuar da condição de candidato na majoritária. Os deputados estão próximos do povo, não carregam o desgaste dos prefeitos que estão com as contas no vermelho e ainda gozam do privilégio de destinar suas emendas e possuir um exército bancado pelo legislativo. Considerando que essas estruturas dos atuais parlamentares lhes colocam em vantagem na disputa, a renovação na Assembleia tende a ser pequena. Assim, cada parlamentar vale ouro para os ‘Governadoriaveis’ e Carlesse parece ter achado um pote no fim do arco-íris.
Carlesse já se qualificou para a disputa e tem ainda outra situação favorável que pode bater a sua porta. Marcelo Miranda está sendo processado no TSE e corre sim o risco de ser cassado – novamente (embora remotas sejam as chances). Os prazos estão vencendo e o ministro Luiz Fux, que pediu vistas do processo em março de 2017, terá que devolvê-lo em breve. Se a justiça entender que houve abuso de poder econômico nas eleições de 2014, isso desencadearia um novo processo eleitoral indireto no Tocantins e Mauro já teria (com o apoio de hoje) os votos suficientes para se eleger governador e disputar a reeleição na privilegiada posição, assim como Gaguim em 2010.
A diferença entre Mauro Carlesse e Carlos Gaguim é imensa. Gaguim, quando governador, conseguiu a proeza de brigar com praticamente todos os líderes do Tocantins e cometeu muitos erros, inclusive o meu amigo Salomão dizia que dava para escrever um livro "Gaguim e as 200 formas de perder uma eleição". Carlesse já tem outro perfil e um comportamento comedido, o que lhe permitiria, chegando ao segundo turno, melhores perspectivas de composição.
A verdade é que a candidatura de Carlesse ao Governo não foi planejada. Seu fortalecimento no cenário político estadual começou numa estratégia orquestrada (por um certo grupo político) para dividir e realinhar as forças no parlamento tocantinense, depois ganhou projeção na intenção (de um outro grupo político) de dividir os votos do "novo" e pode agora tirar o sono de ambos os estrategistas... que pensaram em quase tudo, menos no resultado se ele realmente mantiver a candidatura...