Um jornal feito com os estilhaços da alma

  • 06/Fev/2018 19h02
    Atualizado em: 08/Fev/2018 às 17h06).
Um jornal feito com os estilhaços da alma Foto:

Edivaldo Rodrigues e Edson Rodrigues

O saudoso jornalista Assis Chateaubriand, o lendário magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, que foi o maior conglomerado de mídia da América Latina, disse certa feita que, “Triste inocência dos que pensam que se faz jornal com tinta, papel e pedaços de ferro. Jornal se faz com os estilhaços da alma”. Foi deste molde, também configurado nas entranhas do coração, que Salomão Wenceslau Rodrigues, propiciou expressividade a seu “O Jornal”, um dos mais respeitados e celebrados veículos de comunicação do Estado do Tocantins, que começa a preparar a festa 30 anos de circulação.

Certamente uma trajetória obstaculosa, construída com a argamassa da dor e das lágrimas, que resultou em sorrisos. Esta iniciativa histórica foi assistida pela persistência e determinação de um idealista e por isso se fez vitoriosa ao não se medrar diante dos desafios de um terreno pantanoso, onde os poderosos de então, - que não deixaram de existir - rasgavam a Constituição Federal, tolhiam as liberdades individuais, buscavam calar a imprensa e, descaradamente, impunham restrições ao Estado de Direito.

No enfrentamento cotidiano contra tudo isso, o mítico Salomão Wenceslau Rodrigues, através das páginas do seu “O Jornal”, pautou a cidadania como pilar basilar de um Tocantins que nascia viciado, mas que ele, com um simples “Dedo de Prosa”, indicava os caminhos que o povo tocantinense deveria seguir, contrapondo os projetos politiqueiros e personalistas da esmagadora maioria dos donos do poder político e econômico desta jovem unidade federativa.

Dos gravadores em forma de tijolo, engolindo as palavras registradas como segredos e verdades, seguindo a lentidão da tecnologia em forma de fita K-7, e se materializando em letras miúdas cuspidas das esqueléticas máquinas de datilografia, Salomão e seu “O Jornal” buscava desenhar naquele principiar da vida liberta do então Norte Goiano, um Tocantins igualitário, economicamente viável, sem as mazelas que já machucavam de morte, fome e pobreza as coletividades vizinhas. E, em nenhum momento, este expressivo impresso e seu idealizador se moldaram aos interesses dos gabinetes e dos conchavos cavernosos do poder. Soberano e sábio ele construiu passo a passo um jornalismo comprometido com os reais interesses da gente tocantínia.

Além do que, enquanto entre nós permaneceu, o saudoso Salomão Wenceslau Rodrigues foi o timoneiro de muitos que como ele buscavam construir um Tocantins de cidadania plena. Com idealismo, profissionalismo e muita simplicidade, o sempre presente e atencioso amigo nos apresentava novos caminhos, indicando perspectivas, apontando renovadas possibilidades, oportunidades em que sempre estava disposto a ligar a luz no final do túnel, mesmo sendo o seu “O Jornal” constantemente vitimado pela escuridão econômica, patologia crônica que desde então vem abatendo o jornalismo sério e compromissado com a verdade que cotidianamente defende os reais interesses do povo tocantinense.

Nestas três décadas de jornalismo puro e de qualidade, este reverenciado veículo de comunicação do Tocantins escreveu e certamente continuará escrevendo sua história trilhando os caminhos da ousadia, da coragem e da independência, sempre balizando sua linha editorial na verdade, na honestidade, na ética e acima de tudo levando a informação através das entranhas da razão, mas sem nunca esquecer a paixão. Nesta viagem pela linha do tempo foi deixado de lado tinta, papel e pedaços de ferro, momento em que se escolheu sabiamente fazer noticias com os estilhaços da alma. Assim foi Salomão Wenceslau Rodrigues, assim é “O Jornal”, que vai celebrar 30 anos de indissolúvel parceria com seus leitores.