A Política e as Nuvens

  • 06/Fev/2018 18h39
    Atualizado em: 06/Fev/2018 às 18h55).
A Política e as Nuvens Foto:

Ricardo Abalém Jr.

"Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou", já dizia Magalhães Pinto. O ex-governador mineiro alertava ainda que "Gratidão em política só dura 48 horas".
Duas reflexões claras que - quase sempre - conveniência e interesse pessoal superam a essência da 'Arte de Governar' (o significado que deveria ter a palavra política, de acordo com o vernáculo da língua portuguesa).
Dito isso e considerando as movimentações que aquecem o cenário político eleitoral de 2018, especialmente na disputa pelo Palácio Araguaia, temos que estar preparados para ver de tudo. Ou melhor, para rever de tudo.
É praticamente certo que teremos uma eleição em dois turnos. Bom para os marqueteiros, nem tanto para a população que paga a conta. Mas tem seu lado positivo, aquece o jogo democrático. Então, pelo andar da carruagem... quem não se unir até o dia 7 de outubro, pode se misturar no dia 28 de outubro.
O Tocantinense não é acostumado com segundo turno, o coração do eleitor por aqui bate num compasso de 4 em 4 anos... tempo suficiente para assimilar as trocas de partidos, de posicionamento e até de amigos. Mas escrevam aí... veremos esse compasso ser reduzido a 21 dias (período entre o 1º e 2º turno). E isso vai enfartar gente.
Quando cheguei a Palmas em 1990 - ano das Eleições Gerais no Brasil - trabalhando como repórter na TV Palmas, tive a oportunidade de cobrir a primeira eleição realizada em solo 'oficialmente' tocantinense e dirigida pelos poderes aqui constituídos. Digo isso porque as eleições de 1988 ocorreram sob a égide do TRE de Goiás. O velho (e esquecido) norte-goiano só se tornou tocantinense, de fato, com a instalação dos poderes no novo Estado em 1º de janeiro de 1989.
Foi justamente no ano de 90 que tivemos o único processo eleitoral com dois turnos no estado. No primeiro turno Moisés Avelino (PMDB) obteve 49,12% dos votos, Moisés Abrão (PDC) 37,33%, Ary Valadão (PDS) 10,51% e Célio Moura (PT) 3,04%. No segundo turno os votos do Ary Valadão se dividiram e a vitória ficou fácil para o PMDB de Avelino.
Nunca mais se registrou outra divisão equilibrada de forças, com mais de duas frentes. A disputa ficou sempre polarizada entre o grupo da União do Tocantins e o grupo do PMDB. Desde a criação do estado, a UT elegeu 5 governadores e o PMDB elegeu 3.
Claro que nem a UT ou o PMDB conseguiram manter seus grupos. Na dança de partidos e das composições, todos já bailaram na pista com todos... já foram aliados um dia e adversários no outro... dormiram juntos e acordaram separados. Por isso nenhuma composição vai surpreender o tocantinense em 2018. E o pensamento de Magalhães Pinto faz jus a nossa política.
Analisando a movimentação do período pré-campanha desse ano, já enxergamos os sinais límpidos da formação dessas nuvens. Até o dia 5 de agosto tudo pode (e vai) acontecer, aliás eu diria que até o dia 15 de agosto (prazo final para registro das candidaturas), já vi muita coisa mudar depois das convenções.
Um aviso aos eleitores ‘navegantes’: as eleições 2018 do Tocantins vem com muita emoção. Até o momento nove pré-candidatos ao governo já se manifestaram: Marcelo Miranda (MDB), Carlos Amastha (PSB), Ronaldo Dimas (PR), Katia Abreu (sem partido), Mauro Carlesse (PHS), Ataídes Oliveira (PSDB), Paulo Mourão (PT), Marlon Reis (REDE) e Marcos Souza (PRTB). Alguns não conhecem bem o estado, já outros... o povo do estado conhece bem até demais.
Marcelo é governador, vai pra disputa naturalmente. Tem carisma, grupo e a máquina administrativa (um tanto queimada, mas é sempre pesada). Se escapar da justiça e conseguir pagar o funcionalismo em dia terá fôlego para chegar ao segundo turno. Amastha vem de uma gestão inovadora, marcada pela coragem de enfrentamento e está animado com as pesquisas internas. Se conseguir alinhar um discurso harmonizado e respeitoso com os atuais e futuros aliados vai dar trabalho. Dimas foi um congressista atuante, articulador e carrega também a fama de bom gestor. Tem um grupo de líderes fortes e pode equacionar uma boa composição. Terá como desafio deixar tudo alinhado (com os de casa) para renunciar. Kátia está muito confortável, se tudo der errado tem a garantia de mais 4 anos no senado. Traz na bagagem o status de ex-Ministra de Estado e presidenta da CNA. O desafio é encontrar um partido para (re)pousar que não desagregue os aliados, afinal manter PT e PSD não deve ser tarefa fácil. Sua fama de durona tem seus prós e contras. Carlesse, presidente da Assembleia, conseguiu formar um grupo coeso de parlamentares e venceu algumas quedas de braço contra o Governo. Anuncia que tem apoio de 10 deputados, o que o colocaria no páreo. Paulo Mourão tem história e trabalho prestado que legitimam sua intenção, mas o PT (do Donizete) está muito próximo da senadora Kátia e a vaga de senador pode lhe interessar em julho. O senador Ataídes não foi muito bem na primeira experiência que teve na busca do voto popular. Tem boa postura no Senado. Está percorrendo o estado, mas há quem diga que está mesmo de olho na vaga de vice do Amastha, afinal o tempo de TV do PSDB é sempre cobiçado (por brasileiros e colombianos). Marlon Reis e Marcos Souza experimentam o processo majoritário estadual pela primeira vez e a efetivação ou não de suas candidaturas vai depender dessa caminhada até julho.
Oito processos eleitorais transcorreram nesses 30 anos, porém somente 3 homens foram legitimados pelo voto dos tocantinenses: Siqueira, Avelino e Marcelo. Marcelo já esteve no palanque com o Avelino... que já esteve no palanque com o Siqueira... que já esteve no palanque com o Marcelo. Mas esse trio nunca esteve oficialmente reunido, até hoje.
Depois de 3 décadas de encontros e confrontos eles podem sim estar no mesmo palanque, não duvidem. Marcelo candidato ao Governo, Siqueira e Avelino candidatos ao Senado. Pelas declarações que tenho visto na imprensa, essa composição parece ser o sonho do Derval de Paiva (presidente do MDB). Mas o que me intriga mesmo é que o Amastha também sonha com a mesma coisa. Será mesmo porquê? Quem (sobre) viver, verá...