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A mistura dos ribeirinhos

05/02/2015 17h57 | Atualizado em: 07/02/2015 11h32

“A vida é boa e cheia de possibilidades”. A divindade invocada aqui vem ajuizar as idéias no governo de imaginar uma pescaria de Mandis Moelas, que pra nós amantes de pescaria enlouquece.
A frase não tem nada a ver com o juízo, muito menos com enlouquecer. Mas é bom de mais uma pescaria de mandis moelas. Talvez pessoas fora deste eixo achem exageradamente gostar de pescar.

Mas repare bem, não é isso mesmo que um mantra deve ser? Não seriam essas frases, repetidas pra nós mesmos, uma forma de auto-hipnose destinada a nos fazer seguir em frente, confiantes em nosso sucesso? Não sei. Estou só especulando a curiosidade que me acua a buscar lá no ontonte, arquivado no HD da cachola, as histórias de pescarias. Hoje, cujos arquivos observo que não era bem lá ao longe, no ontonte, mas beirando o ontem.

Deste modo, a moagem aqui é pra falar do Ribeirão Pratinha, que outrora desaguava arriba do Povoado do Canela e abaixo do prumo da Praia da Graciosa, a Velha Graciosa. E pensa num corregozinho que era bom de peixes. Fartura de surubins, tucunarés, piaus, papa-terras, trairas, lambaris, cascudos e mandis, os meus prediletos.

Este veio d’água serpenteava da cabeceira até ser engolido pelo Rio Tocantins. No trecho serpenteado formavam bondosos poços de pescas. Presentemente este Ribeirão abocanhado quase que por inteiro pelo Mar do Lajeado, sobrou um fiapo minguado de água, que brota próximo e acima da Vila Militar do Exército. Acabaram os pesqueiros e às ilustres pescarias, que rendiam bons pescados, onde o mandi, meu preferido, coalhava nos remansos, principalmente após as chuvas.

Na chegada ao Povoado do Canela pela estrada que vinha de Taquaralto, uma ponte de madeira sobre o Pratinha era o endereço das pescarias. Lá se avistava as piabanhas ou matrinchãs pulando, brilhando no sol. Vi muito pescador pegar peixes grandes, até surubim de 10 Quilos. Via a criançada nadar, alguns tiravam as roupas e deixavam na beira do rio, algum outro moleque escondia a roupa deles! Isso eu cheguei a ver. Lá fui muitas vezes fui buscar uns mandis, gostava de pescar só mandi. Forante os dias da Semana Santa, raro, às vezes que não levava pra casa uma fieira de 10 a 12 peixes. Também era raro as vezes que não levava uma esporãonzada dos mandis capturados. Principalmente nos dias que não sobrava Velho Barreiro para a volta.

As fieiras eram feitas com galhos finos de goiabeira, fruteira em abundância nas adjacências do povoado. Agora tudo submerso.
Quanto ao peixe propriamente dito e Benedito, figurante desta minha prosa, o nome vem do tupi mãdi'i, alcunha dado a diversos peixes de couro da família Pimelodidae, encontrados em importantes bacias hidrográficas brasileiras.

Parente próximo dos grandes bagres siluros como a pirara e o pintado, um de nossos mandis, o que fora batizado por Pimelodina flavipinnis, meu preferido, também conhecido por Mandi-moela e Mandi-galinha é um peixe de couro, corpo alto no início da nadadeira dorsal, afunilando em direção à cabeça cônica, com olho em posição elevada. O comprimento pode chegar a 40 cm e pesar até 3 Kg. Coloração castanha com inúmeras manchas escuras no dorso e flancos, ventre amarelado.

Ecologia do Pimelodina flavipinnis
Nadam nas bacias Amazônicas e Araguaia-Tocantins, têm preferência por margens de rios, lagos, remansos e boca de riachos.
São onívoros em primeira ordem, mas que não perdoam um menu de larvas de insetos, algas, moluscos, pequenos peixes e fragmentos de vegetais.
Reprodução com desova total nas enchentes.

Importância
Como são peixes facilmente capturados com anzóis, mesmo sendo pequenos, por causa da abundância, estas espécies são facilmente encontradas em mercados e feiras. Sua carne é clara e de sabor muito suave, muito apreciada pelos ribeirinhos do nosso Tocantins.
Varas do tipo leve/leve médio; linhas de 10 a 14 lb.; e, anzóis até o n° 2/0 são os apretechos usualmente conferidos pelos pescadores de barranco.
Minhoca, peixes pequenos ou em pedaços, queijo prato são iscas mais recomendadas. No manuseio com o Mandi adotar cuidados especiais, porque os espinhos das nadadeiras dorsal e peitorais podem causar ferimentos dolorosos.

Peixada de Mandi
Receita da Dona Merca, moradora da fazenda Mirador, na margem esquerda do Rio Mombó.

Ingredientes
*2kg de mandis sem cabeça e rabo;
*100ml de azeite;
*1 cebola em rodelas;
*2 tomates;
*folhas de couve;
*3 ou 4 pimentas verdes;
*cheiro verde e sal a gosto;

Preparo
Faça um bom refogado com azeite, cebola, sal, tomates, pimentas e o cheiro verde. Junte a esse refogado os mandis em postas. Cubra com folhas de couve, tampe a panela e deixe cozinhar em fogo brando, tendo cuidado para não deixar que o peixe amoleça demais. Pouco antes de servir retire o peixe e uma quantidade de molho e engrosse o resto do molho com farinha de mandioca, servindo o peixe com esse pirão.