Cidade Aberta

Escritor Alexandre Acampora discute os paradigmas históricos da formação civilizatória do Tocantins em novo livro

09/09/2015 16h40 | Atualizado em: 09/09/2015 16h58

Foto: Portal Romana de Natividade
Dona Romana de Natividade
Dona Romana de Natividade
A começar pelo título o novo livro de Alexandre Acampora é repleto de surpresas. Burangaba é uma palavra criada no Jacuba, região da cidade de Natividade. Seu criador, Marcolino Pereira da Silva, pai de Romana de Natividade, motivo da narrativa, é um entre os principais entes da história. O neologismo significa um mingau, uma mescla de Buriti e Mangaba batidos em água e farinha. Um alimento criado pelos índígenas e assimilado pela comunidade do Jacuba. Luíza, mãe de Romana era filha dos índios Acroás e sabia receitas ancestrais. Acampora diz que um livro também é um alimento, um alimento para o espírito e poder recuperar um neologismo sertanejo e típico da cultura tocantinense é como achar uma pedra preciosa.

Sobre o processo de elaboração conta que foram necessários dois anos de pesquisas por bibliotecas e centros de documentação histórica do Rio de Janeiro, de Goiás, Brasília e visitas a Vila Boa de Goiás no Museu da Bandeira ena Fundação Simon Dorve. Realizou dezenas de entrevistas em Natividade e no livro duas são destaques, a do Padre Joatan e a de Maroto Borges, 100 anos. A narrativa tem uma boa dinâmica e cativa o leitor até seu desfecho.

- A motivação do livro resulta da surpresa provocada pela contemplação da obra. Foi e ainda é um impacto para meu olhar. A mitologia que Romana criou, interligando um universo anímico com um universo ambiental, terreno, é ainda mais surpreendente que a concretude das obras expostas em meio às matas. A murada de pedra canga já não segura a profusão de peças. Mais. Romana talvez seja a única artista do mundo que nunca vendeu uma peça. Atua através de uma liturgia mitológica que envolve a arte. Os seguidores de Romana são incentivados a produzir símbolos, imagens simbólicas, Nise da Silveira diria Imagens do Inconsciente. O livro vai por essa estrada não sem antes reconstruir a historiografia do Tocantins através de dados documentais de pesquisas. Entrevistas e estudos de documantação histórica. Me vi obrigado a isso porque ningem conhece o Tocantins e quem conhece pouco sabe sobre sua história. E não há como explicar Romana sem uma base histórica. Romana carrega tradições da cultura indígena e africana. Romana é um ícone da formação civilizacional do Tocantins.

Sobre a leitura Alexandre Acampora afirma:

- As partes interessantes são todo o livro, porque me dei a liberdade de transitar entre a linguagem das ciências sociais e humanas e e os poemas e canções do povo e do imaginário popular. A dinâmica do livro por vezes se torna reportagem. Vivência. Acredito que uma forma surpreendente de narrativa que encontraria definição no ensaio. O gênero que melhor define o livro é o ensaio crítico. Mas nesse ensaio crítico você vai ler poemas, motes populares, lendas, dados históricos e duas entre outras entrevistas antológicas. Uma com o Padre Joatan, que já virou mito do sertão com anedotário popular e outra com Maroto Borges, hoje com 100 anos, e veja, não são peças avulsas na leitura, estão integradas à dinâmica narrativa porque tanto Pe. Joatan quanto Maroto Borges estão vinculados à história de Romana.

Sobre misticismo e cultura Acampora diz mais:

 - Acredito que o propósito maior da publicação é trazer à consciência pública a história dos africanos no Tocantins e a trajetória da vida de Romana. Acabar com os preconceitos existentes atá em sua própria cidade onde a qualificam como bruxa, feitiçeira. Tanto Nise da Silveira quanto Jung, além do antropólogo Mircea Elíade são visitados na narrativa para aproximar as pessoas de uma compreensão clara de uma mulher com forte personalidade artística e bela produção artística através da qual desenvolveu uma mitologia cabocla, original, uma mitologia que reflete a história da cultura brasileira. Nise da Silveira afirmava que o ser tem inúmeros estados e cada vez mais complexos. Todo artista cria uma mitologia em torno de sua produção, mas Romana desenvolveu uma mitologia soteriológica e ecológica. Uma mitologia que se destina a enfrentar as mudanças provocadas pelas alterações ambientais. Que prepara a humanidade para um novo mundo.

 - Na verdade acredito que as pessoas que ignoram a prática de Romana são as mais preconceituosas. O vetor dos trabalhos de Romana é a arte e a arte é uma linguagem que nos liberta do racionalismo e da lógica e nos aproxima da plenitude do ser, de nossa subjetividade. A arte e sua linguagem são instrumentos de interpretação dos seres e do universo. A psicologia criou instrumentos interpretativos usando a arte. Em todas as religiões a arte será usada como meio de atingir a espiritualidade - músicas, cantos, danças, estátuas, quadros, pinturas, simbolos. É através de representações simbólicas que se atinge o eu ou o conhecimento do eu - a consciência.

História do Tocantins

Segundo Alexandre, não seria possível escrever sobre Romana de Natividade sem recorrer à história do Tocantins. "Romana é afrodescendente e sua prática se justifica a partir de referências culturais africanas. Estudá-la sem compreender a participação dos africanos na formação cultural tocantinense seria um erro. Por outro lado na historiografia oficial os escravizados sempre foram tratados como objetos e não como sujeitos. Descubro um novo paradigma para a formação civilizacional do Tocantins - os quilombos e aldeamentos multiétnicos e marginais à colonização portuguesa. O País dos Gentios. São mais de dois mil aldeamentos de índios, negros, degredados e foragidos no interios do Brasil entra Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Esses aldeamentos são o tempero principal da nacionalidade brasileira. Eram autônomos e constituiam sociedade organizadas com regras e lideranças. O mais importante - desejavam se autodeterminar. Desejavam liberdade e originalidade cultural", disse.

 
Data de lançamento - 25 de setembro as 19:00 horas no Salão do Livro do Tocantins.
O livro conta com 326 páginas, impresso pela editora Vozes e acompanha a leitura um site: www.romanadenatividade.com com 1.200 fotografias dos trabalhos de Romana e do Jacuba onde repousam suas peças encantadas.