Carta ao Salomão

Ainda combatendo a caravana do medo

09/03/2015 15h09 | Atualizado em: 09/03/2015 15h15

Meu estimado Salomão:

A saudade continua imorredoura, mas seus exemplos dignificantes que nos pautaram durante tão iluminada convivência, por anos a fio, continuam a alimentar nossas almas com a certeza de que a luta tem que ser persistente para a necessária retomada da lapidação daquele diamante bruto que você, por incontáveis momentos, tão bem associou ser o nascente Estado do Tocantins.

Sabemos todos que o sonhado Estado do Tocantins, moldado por teorias libertárias, engendradas pelo povo do Norte Goiano e seus líderes, homens emblemáticos e míticos, como Osvaldo Aires, Fabricio Cesar Freire, Feliciano Braga, dentre outros, nasceu realmente como uma pedra preciosa a ser lapidada, necessitando de mãos hábeis para sua feitura de brilho intenso e exemplar com nova unidade federativa.

Você é sabedor caro amigo Salomão, que o sonho secular da parte pobre de Goiás, era se constituir num Estado do Tocantins sustentado pelos pilares do desenvolvimento. Este desenvolvimento necessariamente teria que ser alicerçado na democracia, no trabalho, na ética, na retidão, na cidadania, nas liberdades individuais e principalmente no respeito à identidade, à cultura, à memória e à tradição do povo tocantinense.

Nada disso foi levado em conta. Não adiantaram os expressivos esforços dos integrantes da CONORTE, entidade representativa composta por homens de destaque, reconhecidos nacionalmente e que antes de 5 de outubro de 1988, realizaram através de encontros regionais um minucioso levantamento das demandas locais para se construir uma unidade federativa sem os vícios políticos, sociais e econômicas dos demais estados brasileiros.

Todo este estudo realizado pelos integrantes da CONORTE foi menosprezado e direcionado à lata do lixo. Em seu lugar foram importadas e implantadas as ideias e ações de dezenas de “múmias políticas” originárias de Goiás, enterradas naquele estado pela forças soberana do povo, que fez uso do poder das urnas para devolvê-los ao subsolo da história, de onde foram resgatados e anistiados pelos então mandatários do nascente Estado do Tocantins.

Aqui, como você bem sabe saudoso Salomão, o Tocantins passou então a ser comandados por feitores e artífices do mandonismo, que cotidianamente abriam o baú das maldades e da lá retiravam chibatas e esporas para impor ao povo tocantinense o império da suserania e da vassalagem. Desde então, as nossas instituições que deveriam defender os interesses desta desassistida coletividade, postou-se de joelhos a ovacionar o avanço da caravana do medo a transportar a máquina de moer as esperanças do povo.

Da lá para cá, admirado Salomão, ao invés do uso de mãos hábeis para lapidar aquele seu sonhado diamante bruto, eles, os mesmos, optaram por erguer eleitoralmente o “barracão da vitória”, extensão dos calabouços e dos gabinetes do mando, onde se preparou a coroação de um “príncipe”, ao mesmo tempo em que impregnou no imaginário popular a ideia de um “eterno governador”, que por força do povo, que começa a sair da letargia, acabou de entrar para a história apeada do poder pelas portas do fundo.

Antes do desembarque do poder, pelas portas do fundo, é bom que seja reforçado estimado Salamão, os de sempre, promoveram a cassação de um governador, e tempos depois engendraram artimanhas para indiretamente eleger outro, escolhido como “marionete” para o preparo de uma “eternidade” pretendida pelo “príncipe coroado”, que acabou desfigurado e com voz solitária habitando um parlamento que nos parece querer se libertar de um passado desabonador.

Não tardou e aquele “escolhido como marionete”, meteu os pés pelas mãos. Creia amado Salomão, por algum tempo ele se vestiu ilusoriamente de cidadania e de civilidade, entoando um discurso moderno e transformador, ao mesmo tempo em que se armou do caos, escondendo por opção os milhões de reais desviados do Igeprev. No findar de seu mando, nos turvos das noites, ele institucionalizou a irresponsabilidade, o que permitiu o aprofundamento da pobreza do Tocantins com unidade federativa, que foi levado à condição desesperadora da inadimplência quase insanável.

Para consolidar o mais do mesmo, o que deveria ser “marionete” e que se fez depredador do patrimônio do povo, se vestiu de bom samaritano e, com “recursos de fumaça”, construiu um castelo de mentiras para ali fazer abrigo de enganação a serviço de servidores públicos ávidos por melhorias salariais e melhores condições de trabalho, jogando assim lama e desesperança no caminhar dos que ainda acreditam num Estado do Tocantins como um diamante de esplendia singularidade.

É por tudo isso e muito mais, amado Salomão, que aquele Tocantins sonhado por todos nós, nada mais é do que uma “terra arrasada”. Além do desserviço da classe política, das maracutaias institucionalizadas, da inoperância das instituições, ainda reina nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades a miséria, onde milhares de famílias habitam casebres, convivendo diariamente com o abandono. Mas, do mais do mesmo, na capital, Palmas, as autoridades constituídas se labuzam e se refregam em milhares de reais liberados para auxiliá-los em moradias dignas de suas importâncias malditas.

Meu estimado amigo Salomão, ao findar essa missiva, quero pedir-lhe desculpas por tão corrosivas afirmações em forma de desabafo. Recorri a esse tom ciente de que você é sabedor do porque da minha indignação. Lutamos juntos nesta batalha histórica que culminou com a criação do Estado do Tocantins. Sonhamos unidos um sonho que alguns poucos teimam em transformar em pesadelo, o que não permitiremos, pois ainda bebemos da sua ousadia, da sua sabedoria e principalmente da sua crença nas mãos do povo como força motriz para lapidar este diamante ainda em estado bruto.

É, pois é. É isso aí.

Edivaldo Rodrigues
Jornalista, Historiador e Escritor e no momento exerce o cargo de Secretário-Chefe de Comunicação da Prefeitura de Porto Nacional.