Carta ao Salomão

Um espaço para a Independência

22/12/2014 15h57 | Atualizado em: 22/12/2014 16h00

Divulgação
Meu caro Salomão:

Faz pouco menos de um ano e meio que você foi colher na eternidade os frutos que plantou aqui. Mas confesso que fiquei órfão, pois você me entendia, e vice-versa. Para o calendário, foram quinze meses, mas para nossos corações será sempre uma eternidade!
Quando naquela fatídica manhã de 16 de dezembro de 2010, a Polícia Federal chegou a minha casa, provocada por políticos do Tocantins, você e meu irmão Deodato foram as primeiras pessoas que chegaram ao meu portão para levar-me o conforto e a solidariedade. Após mais de cinco anos de um inquérito e depois de um processo que se arrastou no STJ, sem conseguir imputar-me qualquer culpa pelos fatos a mim atribuídos, fui denunciado. Foi uma denúncia completamente inepta, que desde dois de dezembro de 2011 encontra-se travada na mesa do ministro relator, João Otávio de Noronha. Aí surgiu um impasse jurídico: se aceitar a denúncia, terá que justificar os motivos, que não existem; se não aceitar, como justificar por que está na sua mesa há mais de três anos?
O jornal a que servi, fiel e gratuitamente, por treze anos, publicando dominicalmente, por 676 edições, uma prestigiada coluna, simplesmente ignorou meu passado, e, aliado a blogs sabidamente remunerados por políticos, buscou detonar-me.
Mas você, Salomão, que me acudiu na hora mais difícil de minha carreira, não se deixou levar pela busca do sensacionalismo barato e abriu-me neste veículo o espaço que o outro jornal me tomou de volta, e você, saudoso amigo, me incentivou em tudo.
Fui (sem provas e sem culpa formada) estraçalhado pela imprensa, mas o povo tocantinense é o maior conhecedor de meu procedimento, meu conceito e – sem falsa modéstia - minha importância para o Tocantins, como administrador da coisa pública, magistrado, escritor e historiador.
O CNJ, apesar de ser desejo de alguns políticos do Estado (mas nenhum tocantinense nato) não conseguiu aposentar-me compulsoriamente, e retirar-me de cena, como já fizera com três outros colegas.
Meu saudoso amigo Salomão, que eu chamava carinhosamente de “Gordo”, esses políticos tentaram debalde apagar meu nome do Tocantins, mas agora retorno, com a consciência tranquila dos retos e a dor interior dos injustiçados, mas vou trazer, no espaço que seu jornal tornou a me facultar, minhas revelações, para que o povo tocantinense conheça episódios que até então ninguém imaginava e, também, páginas de crônicas e causos para nosso povo.
Sempre, como você, independente, qualidade que anda escassa em setores da nossa imprensa local (às vezes comprada, às vezes medrosa), o leitor tomará conhecimento de histórias que nunca foram levadas a público, como os concursos forjados, as nomeações espúrias de magistrados de cabresto, a influência da política no Judiciário, no Tribunal de Contas, no Ministério Público e em todas as entidades que nada tinham a ver com o Executivo, numa espécie de republiqueta bolivariana xerente.
Quanta falta você faz, meu amigo Gordo, pois você foi um dos poucos cireneus que me ajudaram a ombrear a cruz neste calvário. Dos advogados que viviam tomando cafezinho no meu gabinete, continuaram meus amigos o Dr. Paulo Roberto (o Paulinho Paiacã) e Nadin el Hage, que, sem receio de pegar a “lepra” que o afastamento me impôs, estiveram em Goiânia para me visitar; nenhum colega de toga se dignou a perder dois minutos num telefonema, nem mesmo aqueles que me usaram para chegar aonde chegaram. As honrosas exceções foram Allan Martins Ferreira, ex--presidente (no episódio da “Operação, Maet”), e Roniclay Alves de Morais, atual presidente da Asmeto, que vem me apoiando sempre, talvez até correndo o risco se indispor com os colegas. De políticos, recebi apenas a visita do hoje governador Marcelo Miranda.
O leitor saberá, Salomão, como foi forjado um atentado para abrir uma vaga de desembargador à custa de sua morte; como e por que o desembargador Amado Cilton foi sumariamente exonerado dez anos após a nomeação; como um conselheiro do TCE que foi nomeado, empossado e depois “desnomeado” por Siqueira Campos; como o mandato de deputado foi tomado de Lindolfo Campelo para ser dado de presente a Uiatan Cavalcante; o desaparecimento de pessoas e outros fatos. E assim, meu amigo Salomão, você, como talvez o meu único confidente, sabia de tudo, pois lhe entreguei os originais de um livro-depoimento, com mais de 400 páginas, mas você, sem a mínima consideração conosco, deu um precipitado adeus, o que me fará dedicar-lhe esta obra, tão logo tenha condições de publicar.
O leitor saberá quem são os políticos que chegaram pobres e hoje pontificam como grandes empresários e fazendeiros no Pará. E conhecerá certos ministros que, não obstante venderem decisões, querem punir magistrados apenas por suposições nesse sentido. Vou contar a vergonhosa história de alguns desses personagens.
O público saberá, com detalhes, destes e de outros fatos que envergonham o povo, como a trajetória política de uma parlamentar ardilosa, arrivista, maquiavélica e volúvel, que quer manobrar a política tocantinense, apesar dos escândalos que pipocam a cada dia sobre sua pessoa, assim como a atuação de outros políticos que, a exemplo dela, filiam-se a partidos ao sabor das conveniências pessoais, mostrando serem farinha do mesmo saco.
Mas minha página, Salomão, não será somente de notícias e denúncias, nem de promoção de políticos que subvencionam a imprensa, remunerando jornalistas e blogueiros para defender quem lhes paga. Vou espelhar-me no Salomão da Bíblia para tentar ser pelo menos uma sombra do Salomão do Gongomé, lugarejo nas beiradas de Itaberaí, que fazia fronteira entre seu berço e o resto do mundo, aonde, certa feita, fui com você pra ter a certeza de que existia.
A par disso, meu amigo Salomão, meu espaço será uma forma de demonstrar quem são os bandidos e os bodes expiatórios na história recente do nosso Estado. Hoje aposentado, não terei (mesmo porque nunca tive) de andar atrás de políticos em busca de cargos, benesses e sinecuras, e tampouco vou trajar o vestuário do medo.
Seguindo seu luminoso rastro, caro amigo Salomão, nada irá inibir minha linha de independência e de verdade, e, sobretudo de destemor, pois quem tem medo de falar a verdade - como era você - não merece um lugar na História.
É, pois é. É isso aí.


Liberato Póvoa
liberatopovoa@uol.com.br
(Desembargador
aposentado do TJ-TO,
escritor, jurista,
historiador e advogado).