Carta ao Salomão

Falando de política com Salomão

29/09/2014 08h50 | Atualizado em: 29/09/2014 08h57

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Por Antônio Oliveira

Olá Salomão, há quanto tempo, meu amigo!

Mas, Salomão, vamos falar de política – do Tocantins e do Brasil.

No país, como você vê, com mais amplidão ai de cima, o PT, que há muitos anos jogou sua principal bandeira de luta – a ética na coisa pública -, voava em céu de brigadeiro na campanha dereeleição da presidenteDilma, está, atualmente, apavorado, ou desesperado, com os rumos que a campanha eleitoral tomou após a mortedo candidato à presidência da República pelo PSB,o ex-governador Eduardo Campos.

Se esta campanha for para o segundo turno, meu amigo, o PT “roda” de vez, pois a ex-seringueira do Acre se elege e, cá para nós, que estamos cansados e desanimados com os políticos brasileiros, Marina Silva é mais uma esperança de decência, de coerência e respeito à coisa pública e à instituição política. Ela só precisa deixar mais o radicalismo e ampliar sua visão a respeito do agronegócio.

Entre os três principais candidatos, Aécio Neves, do PSDB, seria também uma boa alternativa para o Brasil. Ele tem bagagem e experiência na administração pública. Porém, está rodeado por retrógrados, não só no PSDB, mas em partidos que congregam ultraconservadores e viciados nas más práticas da política partidária e na administração publica.

Chega, meu amigo, de tanta bandalheira, tanta desilusão. O PT de Lula, ou o Lula do PT, durante as sucessivas campanhas para governos dos estados e para presidente da República, era nossa esperança de um Brasil melhor, de um país livre dos corruptos e corruptores; de um país justo, onde o dinheiro público fosse bem aplicado, sem superfaturamento, na infraestrutura, na Saúde, na Educação, na Segurança Pública e no desenvolvimento tecnológico.

Mas, Saló, o que fez o PT? Aliou-se ao que há de pior na política brasileira e, juntos, protagonizaram escândalos e mais escândalos; páginas e mais páginas policiais.Não dá mais para conviver com este tipo de coisa. Estacorja, excetuando às poucas reservas morais que ainda ficaram no partido, levou o Brasil para a UTI de tanto sugar seu sangue.

Já no Tocantins, desde a pré-campanha, aconteceu tanta coisa que deixaram o povão e até nós, cronistas políticos e formadores de opinião, com a cabeça quase dando “um pau”.Algumas destascosas extrañas, que nos mostram que a política é a arte da incoerência e de engolir sapos, afirmando que é ostra:

A senadora Kátia Abreu, antes siqueirista de carteirinha e depois, mirandista de crachá; depois, novamente nos braços dos Siqueira, morrendo de amores por ele, até com proposta de homenageá-lo, dando ao Lago de Palmas o nome de “Lago Siqueira Campos”, após ganhar, para um de seus filhos-políticos, uma Secretaria de Estado, com todas as honras e glórias de Siqueira, repentinamente, volta a ser uma mirandista.

Imposiçãodo PT e do PMDB nacionaisgoela abaixo dos modebas tocantinenses, caro colega. Pensar que o Lula do PT e o PT do Lula queriam ver o “encardido” a ver Kátia Abreu.

Para este modesto escriba, é uma aliança que não dura dois anos. Kátia Abreu pula fora e, como “a Ignêz é morta” – numa referência ao siqueirismo -, ela cria seu grupo próprio com vistas às eleições municipais de 2016, preparando-se para alçar vôo do Senado para o Governo do Tocantins.

Siqueira Campos, percebendo que seu filho Eduardo, jamais realiza o sonho dos dois – Eduardo governador -, numa manobra legal, porém imoral e desrespeitosa com o eleitorado tocantinense, renuncia e força o seu vice a renunciar, içando ao Palácio Araguaia, o marionete dos dois, Sandoval Cardoso.

A princípio, a manobra tinha como fim a eleição, via plenário da Assembleia Legislativa, de Eduardo Siqueira Campos para o governo do Estado e depois sua reeleição por meio das urnas democráticas. Mas, como sentiram que isto cheirava muito mal para a sociedade, combinaram eleger, pela mesma forma, Sandoval Cardoso. Teria esse o compromisso de, a certa altura de seu mandato, pagar os Siqueira, com sua renúncia e consequente eleição de forma indireta do hipoteticamente bem votado e presidente do Legislativo estadual, Eduardo para governador,consíguelo?

Mais de incoerência e da arte de engolir sapos: Donizeth do PT, que antes tinha Lula como o representante supremo do Bem na terra e Kátia Abreu, a divindade do mal, é guinado para sua primeira suplência.Olha os dedos de Dilma e de Michel Temmer, novamente.

Rauzito ficou a ver navios, caiu – ele e Solange - nos braços de Siqueira novamente, via Sandoval.

Tomaram, no desastrado governo de Siqueira Pai e de Siqueira Filho, mais de R$ 350 milhões do Igeprev, como se toma pirulito das mãos de uma criança e os principais acusados por esta diabrura estão por ai, leve, livre e solto.

Vamos para o processo eleitoral.

Como você sabe, eu não morro de amores pelo siqueirismo, embora tenha muito respeito e vontade de biografar Siqueira Campos, a quem nós devemos a fundação desta bela Capital e, em grande parte – não no todo, diga-se -, a criação do Tocantins. O cearense é um corajoso e trabalhador. Pena que teve sua carreira política jogada no fundo do poço por seu próprio filho.

Em assim sendo, nutria simpatia pelos modebas que governaram o Estado, sem entretanto estar preso a eles – sempre fui independente, sabes disto, amigo -, mas fui também muito mais perseguido pelos asseclas destes, que pelos asseclas de Siqueira Campos.

Mas, desta vez, desiludido com os rumos que os modebas tomaram, a começar pelo Gaguim, um dos articuladores velados da queda de Marcelo Miranda de seu segundo mandato de Governador, causando grande instabilidade política, econômica e social no Estado e, por fim, contribuindo com o retrocesso político, ao vacilar e devolver o Palácio Araguaia para Siqueira Campos, que entregou o governo para o seu filho e o resultado foi um desastre: mais instabilidade.

Escaldado, ainda, com as “eminências pardas”, dos governos de Marcelo Miranda, alimentei a expectativa de uma terceira via. Torci para que a candidatura do presidente da Fieto, Roberto Pires, vingasse. Parece-me ser um homem sério, além da certeza de ser um empreendedor.Ele não precisaria, com o patrimônio material que tem, estar atrelado a grupos econômicos, políticos e pessoais com segundas intenções em relação ao governo. Infelizmente, ele viu que a política no Tocantins não é sua praia. Retirou seu cavalo da raia.

Ataídes Oliveira, que poderia ser esta terceira via, não decolou.

Pois bem, “pois é, é isto ai”. Nos restou como a melhor opção, o ex-governador Marcelo Miranda. Um bom moço que tem uma virtude rara, entre os políticos: a humildade. Estou apostando nele, embora continue temendo muitos daqueles que o cercam ou que ficam na obscuridade do processo. Acredito, no atual contexto, que é o melhor para o Tocantins, embora, com certeza, o Estado continuará na instabilidade geral: Siqueira pai e Siqueira filho vão continuar investindo pesado na sua desestabilização e queda, para facilitar a vida de seu único herdeiro político. Não vai ser fácil para Marcelo e para os setores sociais e produtivos do Tocantins.

Concluindo, assim como o jatinho do Eduardo Campos fez um estrago na campanha da Dilma, um aviãozinho monomotor, em Goiás, pode estar fazendo um estrago na campanha de Marcelo Miranda.

No início do “estouro” deste escândalo, lançado para a mídia goiana e tocantinense com o patrocínio e o estranho empenho de um Delegado de Polícia Civil de Goiás, ficou-se a impressão de armação dos Siqueira, pois estes são capazes das piores coisas para não apearem do poder.

Mas, nesta reta final, a coisa, parece, se esclareceu. Na busca pelo necessário dinheiro para alimentar uma campanha selvagem, onde o que fala mais alto é justamente o dinheiro, o staff político de Marcelo Miranda deu bobeira.A eleição estava garantida mesmo sem dinheiro, o povo está praticamente enojado do que vê no Palácio Araguaia desde 2010.

Hipocrisia, Siqueira já fez e faria coisa igual ou pior, esta é a verdade.

Mas, meu amigo, cá entre nós, diante da cruz representada pelo siqueirismo e da espada representada por este problema de última hora, ocorrido com Marcelo Miranda e pelo seu staff obscuro – as eminências pardas de Marcelo, voltam a aprontar, levando-o para o buraco, como nos episódios que culminaram na cassação de Marcelo, eu prefiro a espada.

Aquele sempre se comportou como rei, imperador, inflexível e senhor de todos os poderes. Seu chicote sempre foi cruel. Seria a continuação do atraso.

Este, mais democrático, mais humano, humilde e flexível. Será a ponte para que, no futuro, tenhamos uma política mais decente no Estado do Tocantins.

Até mais, amigo. Continue com Deus.