Carta ao Salomão

Dois minutos de prosa

22/09/2014 09h24 | Atualizado em: 22/09/2014 09h34

Divulgação
Por: Ricardo Abalem Júnior

Meu amigo Salomão, longe de querer incomodar seu descansoe adaptação ao novo e límpido ambiente onde deve estar agora. Acredito que esteja cuidando do espirito e nos intervalos dando uma olhadinha no que publicamos nessas singelas linhas escritas por seus amigos e companheiros aqui no plano material.

Estou entrando em contato pra dizer que estamos todos com saudade“mestre Salomão”. Saudade de teclar o 9977-4140e ouvir o tradicional “fala Ricardão”, depois eu perguntava “bora tomá uma?” e a resposta era sempre igual: “nos encontramos lá”.

Uma cervejinha (stela na Adega do Santos; Antarctica ou Skol no Cabrito ou Baden Baden no Toscana) dava o toque de entrada e a conversa começava a fluir. Os amigos iam chegando e rapidinho vinha o garçom pra anexar outra mesa. O espaço físico ficava pequeno para grandeza da prosa. Falavamos sobre tudo e “de todos”. O futebol era um aperitivo, mas o prato principal era mesmo a politica.

Fazíamos cálculos e projeções nas eleições (desde a eleição que o Eduardo e o Eudoro disputaram a prefeitura, em 92). Quem venceria? Quem iria compor depois? Quem seriam os secretários? Prognósticos inspirados na paixão que nutríamos pelo processo politico e, é claro sustentada no conhecimento dos anos como comedores de poeira.

Nesse momento, que te escrevo, passa um filme em minha mente: você escrevendo no guardanapo os nomes de quem achava que ia ganhar, dobrava e colocava no bolso da camisa, dava aquela tradicional puxada na gola pra ajeitar a camisa sempre aberta até onde podia (rsrs). Jeitão simples do Gongomé, mas com um tempo de raciocínio digno de Harvard.

Me impressionava o acerto nas previsões. É claro que ao nos encontrarmos pra comemorar ou chorar o resultado das eleições,o guardanapo não existia mais. A Joana tinha lavado a camisa logo no dia seguinte a nossa aposta. Mas o que importava mesmo pra você não era nada disso, nem previsões e nem resultados, e sim os momentos que passava com os seus amigos. Isso sim não tinha preço.

Se estivesse aqui estaríamos nos reunindo como sempre. O mesmo ritual, porém com menos empolgação esse ano (acho). Digo isso porque aquele processo que pensávamospara 2014 sofreu muitas mudanças, muitas baixas e “altas trocas de camisas”. Sabemos que politica é como nuvem: você olha pra ela e vê uma formação, baixa a cabeça e olha novamente e já mudou tudo. Mas mudou muito de lá pra cá (como diria o Geraldinho Nogueira de Goiás: “diferençô” muito).

O contorno que dávamos ao quadro para as eleições desse ano tinha a perspectiva de um embate em três polos:Siqueiristas, Mirandistas e Ribeiristas. Mantiveram-se os times, porém os jogadores que entraram em campo surpreenderam a todos.

Naquela época tínhamos entre nós o senador João Ribeiro (que está fazendo falta para equilibrar a balança das forças politicas por aqui) que era um pré-candidato ao governo e reunia apoio de muitos prefeitos. Se estivesse no embate, muita gente, que hoje está nos palanques siqueiristas e mirandistas, teriam o acompanhado.Mas
Deus achou por bem poupar o senador da missão e ele deve estar aí agora, ao seu lado, de olho na movimentação por aqui.

O fato é que em seu lugar ficou, não só no senado, mas também como candidato ao governo, Ataídes Oliveira. O novo senador conseguiu montar uma aliança politica que envolveu dos radicais (Aragão e Antônio Jorge) aos iniciantes como ele mesmo e a viúva de João, Cinthia Ribeiro. Mas nem mesmo a simpatia da Cinthia, a experiência do Antônio Jorge e do Eli Borges e a língua afiada do Aragão, não foram suficientes pra elevar a duas casas o percentual de intenções de voto em Ataídes. A estratégia não se conhece, pois não se ouve nem a voz dos marqueteiros (pra culpá-los), e olha que gente experiente já passou por lá, mas ninguém permaneceu.

O Marcelo Miranda não tinha, à época, grande esperança, dada a sua condição de inelegibilidade (que ainda o acompanha até o dia 1° de outubro). Além disso, ele ainda estava digerindo o fato de ter vencido as eleições de 2010, mas não ter levado. Sua candidatura ganhou força quando se aliou a senadora Katia Abreu, que tem muito transito em Brasília e se filiou ao seu Partido (PMDB). Para mexer os “pauzinhos” na capital federal e dar suporte jurídico ao ex-governador, certamente a influencia e o apoio de Katia foram decisivos. Afinal Katia jamais deixaria um partido seu (PSD) pra se filiar em outro que não tivesse 100% de comando (e teve inocente que achou que o Junior Coimbra ficaria com as rédeas da carruagem modéba). Hoje,Marcelo e Kátia correm na frente (segundo as pesquisas de intenção de votos), mas a navegação em aguas mansas não está garantida até o final. Tem algumas (mesmo que remotas) possibilidades no campo jurídico e muita coisa na esfera política que pode mudar tudo até o dia 5 de outubro.

A primeira é o efeito Marina Silva, que decolou dos seringais na tentativa de pousar no planalto central. Um voo que parece não ter sido calculado por Lula e Dilma e que tem sido acelerado pelo desejo de protestar, latente no brasileiro.

As tentativas junto aos tribunais de derrubar o registro de candidatura do ex-governador estão chegando ao fim. A cada dia Marcelo vence em uma instancia e colegiado diferentes. Resta agora somente o julgamento do mérito pelo TSE quanto ao recurso da Assembleia Legislativa, que tem por objetivo validar a rejeição de suas contas em 2010. Nesse caso sim, abriria um leque de novos caminhos.

Se através da justiça os palacianos não atingiram diretamente o Marcelo, o fizeram enfraquecendo a chapa majoritária com a derrocada do registro de candidatura do seu vice, Marcelo Lelis. Iindeferido o registro,Lelis foi substituído por sua esposa Claudinha.O efeito disso ninguém sabe qual será. Aliás, esse modelo de substituição de candidaturas dos que tiveram os registros barrados pela Lei da Ficha Limpa, colocando as esposas, não é privilégio do Tocantins amigo Salomão, isso agora é comum no Brasil. José Roberto Arruda (PR), no Distrito Federal; José Riva (PSD), candidato ao governo de Mato Grossoe Neudo Campos (PP), candidato a governador em Roraima. Parece que o velho “jeitinho brasileiro” mais uma encontrou eco. Com a justiça tá tudo certo, resta saber se combinaram com o eleitor.

E o terceiro fator que pode mudar o resultado das pesquisas contra Miranda são as ações do Ministério Publico Federal ele.A Justiça Federal decretou a terceira indisponibilidade de bens do candidato. Marcelo já tem ordem de indisponibilidade de bens num total de R$ 10.642.834,58. Baseado em sua declaração junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em julho, seus bens somam R$ 2.065.620,78. Seu amigo MM não tem tempo nem pra respirar.

No barco governista a tripulação também mudou muito. Eduardo que ocupava um espaço de primeiro ministro, era a aposta para suceder ao pai, o governador Siqueira. Durante três anos o grupo trabalhou essa possibilidade e ao final, após fazer as contas, acharam por bem abortar o projeto. Para viabilizar a candidatura de Eduardo (a qualquer cargo) Siqueira teria que renunciar, e renunciou. Mas abriu mão de concluir seu mandato na expectativa de realizar um sonho que ele nunca escondeu de ninguém: ver Eduardo governador. Mas como as pesquisas aconselhavam a Eduardo não concorrer nesse pleito, foi preciso usar um plano “B”, ou melhor, um plano “SC” - de Sandoval Cardoso. Sandoval foi eleito deputado estadual fazendo campanha ao lado do Gaguim, contra Siqueira. Elegeu-se presidente da
Assembleia no governo de Siqueira Campos, com apoio do palácio, e iniciou um relacionamento “firme e forte” com o secretário Eduardo Siqueira que o escolheu para ser governador tampão e surpreendeu a todos, inclusive ao pai, o lançando candidato à reeleição.

Hoje Sandoval sofre com a herança deixada pela gestão “Siqueiras” que recebe muitas criticas, especialmente na área da saúde. Sente o desgaste do caso do Igeprev e sem duvida convive com a dura realidade de administrar um orçamento comprometido com folha de pessoal. A estratégia dos marqueteiros do candidato palaciano o direciona a “descolar” do Eduardo (aquele que o fez governador). Semana passada ele chegou a registrar um documento em cartório se comprometendo a permanecer os 4 anos no governo, caso seja reeleito. Motivo: eliminar os rumores de que se afastaria pro Eduardo assumir o palácio, via eleições indiretas. O tom dos seus discursos busca transmitir a população uma imagem de independência: Sandoval é Sandoval e Siqueira é Siqueira. Mas a realidade das pesquisas mostra que o candidato Sandoval ainda não superou a casa dos 30% das intenções de voto, enquanto o ex-governador Siqueira Campos tem(historicamente) 35% dos votos dos tocantinenses, fazendo campanha ou no sofá de sua casa. Alguém precisa dizer isso ao Duda Mendonça.

É Salomão, mudou muita coisa por aqui meu amigo.O cenário politico pode ser outro, mas os candidatos, as “estratégias” e os interesses continuam os mesmos... (daqui dá até pra te ouvir dizendo daí: “é, pois é”).